Poderá Boris ter sucesso onde outros falharam?

Sábado, pela quinta vez seguida, um acordo assinado pelo Governo Britânico e pela União Europeia não obteve a maioria necessária do lado de lá do Canal da Mancha. Desde as propostas desenhadas com David Cameron ainda antes do Referendo de 2016, passando pelas 3 derrotas sofridas por Theresa May às mãos do Parlamento de Westminster e até ao adiamento da votação prevista para a primeira reunião da Câmara dos Comuns a um sábado desde a Guerra das Falkland (ou das Malvinas) há mais de 30 anos, nada que diga respeito ao futuro das relações entre Londres e Bruxelas tem merecido o apoio maioritário da Câmara dos Comuns.

Se ignorarmos a incapacidade de David Cameron em vencer o Referendo - que tem uma natureza diferente das derrotas sofridas por Theresa May e do adiamento imposto a Boris Johnson - a questão chave que tem assombrado todo o processo do Brexit pode ser resumido à impossibilidade até agora inultrapassável, de se encontrar uma solução que permita sair do Mercado Comum Europeu sem destruir os alicerces dos Acordos de Paz da Irlanda do Norte.

Tentando simplificar o que é complexo, a paz na Irlanda do Norte baseia-se em parte na possibilidade da comunidade unionista - que defende a continuação da Irlanda do Norte no Reino Unido - e da comunidade nacionalista - que defende a integração da Irlanda do Norte na República da Irlanda - verem os seus direitos e ambições garantidos por mecanismos que se fundam nos princípios das liberdades previstas nos Tratados da União Europeia. Ora, o Brexit limita essas liberdades e obriga ao estabelecimento de fronteiras entre as duas partes da Ilha da Irlanda.

Três anos depois, a única solução que parece funcionar será manter a Irlanda do Norte na esfera regulatória da União Europeia, estabelecendo para todos os efeitos uma fronteira económica, fiscal a aduaneira no Mar da Irlanda. Se o mesmo acontecesse em Portugal, seria como colocar uma fronteira no Douro, no Mondego, no Tejo ou na Serra Algarvia.

Em 2017 Theresa May tentou uma solução semelhante e teve que desistir perante a resistência dos Deputados eleitos pela Irlanda do Norte para o Parlamento Britânico e também de muitos deputados do seu próprio partido. Dois anos depois, Boris Johnson apresenta uma solução que pouco diverge da proposta de 2017 e não sabemos ainda se terá sucesso, mas a votação de ontem - sobre questões processuais e não sobre a questão de fundo - mostrou que há muitos mais deputados a apoiarem o Governo agora que alguma alguma vez apoiaram a Senhora May.

Há uma grande diferença entre o atual Primeiro Ministro e os seus antecessores. Ao contrário de David Cameron e Theresa May, Boris Johnson tem uma legitimidade reconhecida, que lhe vem de ter sido um dos principais líderes da campanha que defendeu a saída do Reino Unido da União Europeia. E essa legitimidade, que o defende de qualquer acusações de querer impedir o Brexit ou estar a minar o processo, poderá ser a chave para fazer aprovar propostas no Parlamento que outros Primeiros Ministros sem as mesmas credenciais não tiveram o capital político necessário.

Ainda é cedo para se saber se Boris Johnson poderá ter sucesso onde tanto Cameron como May falharam. Mas, como lembrava o subdirector deste jornal ontem, muitas vezes é necessário um falcão para ter sucesso onde as pombas falham.

Editor da The London BREXIT Monthly Digest

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