Pandemia e um mundo sem fronteiras​​​​​​

Um acontecimento que estava destinado a ser uma celebração cultural da comemoração de um feito histórico, como consequência da pandemia, teve que se reinventar e com grande êxito demonstrar - como fizeram Magalhães e El Cano há 500 anos - que não há fronteiras quando há desejo de chegar mais longe.

A exposição "Tesoros de America: La Mezcla Latina" estava prevista desembarcar em Cascais, Portugal, com as obras de 29 artistas contemporâneos chilenos, projectando nas suas telas o prolongamento do passado num presente diverso e multicolor. Felizmente todos chegaram e, em ágil adaptação transformou-se com notável êxito num encontro virtual.

Longe de adiar ou atrasar um encontro, assim como a tempestade ou o mar bravo não impediram o avance da expedição destes navegantes, 29 artistas chilenos chegaram a bom porto em formato virtual.

Não é a primeira vez que o mundo da arte e da cultura se comunica virtualmente, mas é a primeira vez que uma pandemia consegue repensar os canais de diálogo, o encontro, a investigação, o descobrimento que nos permite a todos chegar mais longe... Como um grande paradoxo, constata-se que o motivo da comemoração, 500 anos depois, pode celebrar-se virtualmente e, dessa maneira, inspirar gerações de internautas navegadores e piratas nas redes que mal conhecem o seu rico passado.

O intercâmbio de ideias e a aproximação entre os povos já não têm barreiras devido às tecnologias audiovisuais e de comunicação, mas a verdade é que teve de desencadear-se uma pandemia para que tivéssemos que passar por meses de confinamento e incerteza, graças a essa enorme, generosa e engenhosa proliferação de iniciativas partilhadas virtualmente e que nos emocionaram, inspiraram, comoveram e, finalmente, nos fizeram sentir próximos, íntimos, comprometidos, enfim, partilhando um destino comum.

Numerosos museus mundiais, teatros, auditórios, salas de exposições, centros de lazer, e músicos de todos os géneros, partilharam gratuitamente, e generosamente, os seus talentos, abrindo novas janelas ao conhecimento mútuo e ao estímulo intelectual.

Para a diplomacia económica, cultural, científica e desportiva, substituir a actividade presencial e a proximidade física por uma maior presença através das redes constitui um novo desafio, inquietante e estimulante. Deve elevar-se os nossos padrões de qualidade e ambição. A realidade virtual poderia, e de facto parece que pode, diluir as nossas presenças, perfis e limites, e tornar-nos em grande medida prescindíveis. Se um jogo de futebol pode ver-se de modo quase presencial através de hologramas, ou uma conferência pode realizar-se em vídeo, onde ficam a emoção, o contacto, a proximidade, a veemência ou a piscadela de cumplicidade para convencer, persuadir, concordar?

Abre-se um novo desafio para os Estados. Para definir e consolidar a sua presença e o seu impacto numa comunidade internacional, cada vez mais virtual, têm que associar-se e apoiar-se nos melhores expoentes da excelência no sector privado e na sociedade civil. Juntar valor acrescentado com diplomacia económica, cultural, científica e desportiva em formato digital para, como Magalhães e El Cano, chegar mais longe.

Uma das grandes questões levantadas por esta crise são os riscos de desequilíbrio tecnológico. Não estar presente nas redes, não ter o nosso perfil, pode tornar-nos inexistentes? A lacuna tecnológica, e não apenas a pobreza, também podem gerar exclusão.

Não é por acaso que Magalhães / El Cano conseguiu dar a volta ao mundo, pois eles eram os que tinham os últimos avanços em cartografia, astronomia, náutica, além de muita ambição. Esses foram os factores que trouxeram financiamento ao projeto espanhol / português e seduziram 240 marinheiros e deserdados com promessas de aventura e prosperidade.

Do mesmo modo que o feito de Magalhães / El Cano, fruto da união de esforços e recursos - humanos, financeiros, tecnológicos, públicos e privados - reportando extraordinários benefícios e perspectivas de progresso, os avanços tecnológicos e científicos de hoje, multiplicados pelo contributo financeiro, partilhados pelas diversas comunidades científicas, deveriam permitir-nos enfrentar os desafios do futuro, certamente também partilhados como demonstrou a COVID-19, mas sem deixar ninguém para trás.

As comemorações que os nossos povos se preparam para celebrar ao longo do ano têm como objectivo dar uma valia, deixar um legado, mas, acima de tudo, extrair de uma tão vasta herança a confiança nos nossos povos e a inspiração para desenhar o seu futuro.

Embaixador do Chile em Portugal

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