Os leitores invisíveis

Um dos muitos vícios que caracterizam quem escreve, ainda que não seja talvez o mais censurável, é o de sucumbir uma e outra vez à tentação de vasculhar entre papéis velhos, livros usados e volumes dispersos. São os apetecíveis restos do naufrágio de velhas bibliotecas, formadas com a paciência infinita e o interesse particular e irrepetível de antigos leitores, desfeitas, seja a pouco e pouco, pela mansa passagem do tempo, seja de repente, pela força irresistível desse furacão que é a chegada repentina da ruína económica, o abandono familiar e a negligência proverbial das nossas instituições.

Muito se disse sobre aquilo que caracteriza a leitura, atividade que vai mais além da simples reprodução do que se encontra num texto. O leitor, cada um de uma maneira única e irrepetível, descobre o que esconde o livro, sem que esse acto milagroso possa voltar alguma vez a repetir-se, já que, como as águas em movimento do rio, as nossas experiências de vida e leituras prévias, impedem-nos de mergulhar uma segunda vez, e de maneira idêntica, nas mesmas páginas.

Esperemos que, se tudo correr bem, dentro de muito pouco tempo possamos desfrutar da magnífica biblioteca que Alberto Manguel tão generosamente cedeu a Lisboa, para que se instalasse no palacete da Rua das Janelas Verdes. Não há lugar a dúvida de que esse novo espaço será um lugar privilegiado onde refletir sobre o processo da leitura e sobre as suas características, seguindo os passos acertados de Manguel, que já lembrara com toda a razão que convém sempre desconfiar da aparente clareza dos textos, para que outros significados, quiçá ocultos, quiçá evidentes, não escapem ao leitor distraído.

Alberto Manguel assinala também que uma das principais etapas na evolução da leitura é precisamente a que a liberta das suas amarras, escapando dessa jaula triste formada pelos barrotes do enclausuramento escolástico, que impunha a leitura em voz alta, para alcançar o auge da liberdade completa e única de cada leitor, abstraído nas alturas dessa leitura silenciosa capaz de eliminar as críticas e censuras do resto do mundo.

Quando o leitor penetra nesse velho volume, algo decrépito e poeirento, recém-resgatado do labirinto dos alfarrabistas, sem outro fio de Ariadne que a curiosidade perante um leitor desconhecido, ou a que desperta uma capa melancólica, retoma de alguma maneira uma leitura interrompida pelos que o precederam. Como se se tratasse daqueles marcos miliários das antigas estradas, que indicavam as distâncias do caminho, oferecem-nos uma infinidade de sinais que nos guiam através dessa amálgama irrepetível que é o nosso texto particular e irrepetível. É uma mistura que se compõe, em proporções muito variáveis, daquilo que o autor deixou escrito e das experiências vitais, tanto nossas como de outros leitores que nos precederam.

Talvez as guardas conservem uma etiqueta com o nome desse encadernador que, com a sua arte, conseguiu que ao cabo dos anos o volume não perdesse nenhum caderno. Talvez algum dos proprietários anteriores tenha aposto o seu ex-libris numa das guardas, de maneira a que agora conheçamos o seu nome e os seus brasões. Imaginaremos assim, mais aproximadamente, como seriam essas mãos que, talvez num dia ensolarado na tranquilidade de um parque recolhido, ou sobre o mogno desgastado do balcão de uma antiga loja, sustiveram esse livro que agora nos entretém.

Quem sabe se o texto não estará cuidadosamente sublinhado, até com uma ou outra chamada de atenção, recorrendo à lapiseira azul perante uma frase especialmente acertada, ou à cor vermelha, perante outra, provocativa em excesso. Os cantos dobrados quando chega o sono doce ou o aborrecimento repentino, delatam esse ponto exato onde se interromperam outras leituras prévias. Noutras ocasiões, os que nos precederam foram mais cuidadosos e deixaram marcado o ponto das suas leituras com um bilhete de um cinema ou um teatro há muito tempo desaparecidos. Não é raro encontrar também um cartão de visita, uma lista de compras ou a conta de um restaurante. Outras vezes, muito mais raras, aparece em tons sépia, com os traços esbatidos e algo tristes, uma fotografia de alguém que possa ter sido próximo do leitor. Esse rosto acompanha talvez para sempre, sem nunca o ter suspeitado, um poema inacabado, cheio de palavras riscadas, que talvez tivesse sido a resposta que o antigo leitor esteve a ponto de enviar a quem lhe tinha remetido a fotografia.

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