Os Cinco Magníficos das Nações Unidas

Lord Palmerston foi primeiro-ministro inglês por duas vezes no século XIX. É dele uma das melhores definições de política externa britânica: "A Inglaterra não tem amigos eternos nem inimigos perpétuos. A Inglaterra tem é eternos e perpétuos interesses."

Esta postura, ou se se preferir esta política, é hoje seguida pelos Cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Com maior ou menor intensidade tática ou determinação estratégica. E também na escolha do próximo secretário-geral das Nações Unidas.

Os cinco têm desde 1945 o direito de veto. Caso algum se oponha, não há decisões do Conselho de Segurança. Este "direito divino" foi dado aos vencedores da II Guerra Mundial: Estados Unidos, Rússia e Reino Unido. E à França, por pressão de Churchill para ajudar a controlar a Alemanha, tal como à China, por insistência de Roosevelt para condicionar o Japão. A República Popular da China substituiu Taiwan em 1972.

O direito de veto é utilizado para impedir decisões que afectem os interesses geopolíticos destes cinco membros permanentes do Conselho. Que foram, até há poucos anos atrás, as únicas potências nucleares.

Os cinco países analisam a candidatura de António Guterres neste quadro de referência. E cada chancelaria no ângulo das conveniências actuais e das cinco ou dez anos, conforme o candidato possa exercer um ou dois mandatos. Muito provavelmente os Estados Unidos, a Federação Russa e a China irão reservar a sua posição até ao último minuto. O que não significa que não tenham feito avaliações e escolhas. Trata-se de guardar capacidade negocial por parte das potências "imperiais". E de jogar noutros equilíbrios que ultrapassam a eleição do secretário-geral e mesmo as próprias Nações Unidas.

O Reino Unido e a França, por enquanto ainda os dois na União Europeia, poderão ter uma outra perspectiva, talvez mais positiva, para a candidatura portuguesa. Paris poderá ter em conta laços históricos e até afinidades ideológicas actuais. Londres talvez considere a mais velha aliança do mundo. E Pequim recordará o sucesso da transição de Macau e da transferência da sua administração em Dezembro de 1999, num governo Guterres. Mas não serão factores determinantes.

Todos os ministros dos Negócios Estrangeiros dos Cinco já fizeram análises sobre a acção de António Guterres, como primeiro-ministro português e como alto-comissário para os Refugiados. Avaliando posições em função das suas políticas e na perspectiva das relações com Portugal. Estarão em todas as sínteses as referências à União Europeia (em que estão a França e o Reino Unido), à NATO (em que somos aliados dos Estados Unidos, França e Reino Unido) e à CPLP.

O registo histórico de António Guterres e o relacionamento com Portugal entrarão assim em linha de conta sem condicionar escolhas. Bem como as alternativas e os factores positivos e negativos dos outros candidatos.

Também os equilíbrios leste--oeste e norte-sul, em função das diferentes geografias, das percepções das cinco capitais naqueles equilíbrios. Sem deixar de lado a defesa dos seus interesses, em função das dinâmicas atribuídas aos candidatos na gestão da máquina da ONU e nas possíveis crises nos próximos anos.

Daí a importância das claras posições assumidas por António Guterres nas diferentes job interviews públicas nas Nações Unidas, em que fez a diferença.

As vontades políticas dos Cinco e os seus interesses geopolíticos serão contudo filtros essenciais no rastreio do passado dos candidatos, na verificação das suas posições de hoje, nas perspectivas de acção futura. Porventura com maior amplitude dadas as especiais responsabilidades nas Nações Unidas.

Mas nem por isso diferentes das ponderações políticas de todos os outros Estados membros. É que a política externa não se pode fazer com estados de alma.

Embaixador, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros