Opióides, Pipocas, Halloween e São Valentim: Is Dr. House in the house?

Têm surgido algumas notícias alarmistas sobre eventuais perigos da utilização dos medicamentos analgésicos opióides. Estas notícias, quase todas com origem nos Estados Unidos da América e muitas vezes desinseridas do contexto original, merecem alguma reflexão num país como Portugal em que 14% da população adulta sofre de dor crónica moderada ou severa e apenas uma fração mínima dessas pessoas utilizam aquele tipo de fármacos.

Opióides

O início da utilização do ópio com fins terapêuticos perde-se na antiguidade dos tempos pré-históricos, mas existe um consenso generalizado sobre a existência de registos de cultura da Papaver somniferum, a planta de onde se extrai o ópio, pelos Sumérios na antiga Mesopotâmia cerca do terceiro milénio A.C. Atualmente, os medicamentos opióides, derivados do ópio ou sintéticos, são, genericamente, os fármacos mais eficazes no alívio de quase todos os tipos de dor, estando indicados para o tratamento de dores moderadas ou intensas que não cedem aos analgésicos não-opióides, particularmente no caso de dores agudas. No entanto, a ação dos medicamentos opióides depende da ativação de recetores endógenos que provocam outros efeitos para além da analgesia, incluindo náuseas e obstipação, prurido, efeitos psicológicos como a euforia e, em doses elevadas, depressão respiratória. Estes dois últimos efeitos são responsáveis, respetivamente, pelo seu potencial aditivo e pela letalidade associada ao consumo indevido de opióides "fortes" (ver nota no fim do texto) para fins recreativos.

Pipocas

O consumo de medicamentos opióides apresenta grandes assimetrias a nível mundial. Nos Estados Unidos da América (EUA) e no Canadá, em particular, verificou-se nos últimos anos um aumento muito significativo do consumo dos medicamentos opióides "fortes". De acordo com dados do International Narcotics Control Board (INCB), o consumo destes medicamentos (excluindo a metadona) nos EUA passou de cerca de 170 mg de equivalentes de morfina per capita em 2000 para aproximadamente 550 mg em 2012, um aumento superior a 320%. Este aumento deveu-se sobretudo ao aumento do consumo de oxicodona, pois apesar dos EUA representarem apenas cerca de 5% da população mundial, é nos EUA que se consome 80% do total daquele fármaco produzido a nível mundial. No Canadá observou-se um aumento semelhante no mesmo período, embora menos dependente do aumento da oxicodona. Pelo contrário, na Europa não se observou um aumento equivalente, embora tenha havido aumentos de consumo, sobretudo em alguns países em que a utilização destes medicamentos era, ou ainda é, muito baixa.

Halloween

A utilização dos medicamentos opióides "fortes" para fins recreativos nos EUA teve uma escalada em paralelo com o aumento do consumo. O National Survey on Drug Use and Health mostrou que em 2013 cerca de 4,5 milhões de pessoas utilizavam medicamentos opióides para fins recreativos, o triplo dos utilizadores de cocaína e 15 vezes mais que os utilizadores de heroína.

Os óbitos associados ao consumo de opióides aumentaram também muito significativamente nos EUA. Dados do Centers for Disease Control and Prevention revelam que em 2013 ocorreram 43.982 óbitos provocadas por overdose nos EUA, dos quais 52% foram devidas a fármacos, e 72% destes envolveram medicamentos opióides, frequentemente em associação com benzodiazepinas. Estes dados determinaram um expectável recrudescimento da opiofobia nos EUA (e no Canadá, onde também ocorreu uma situação semelhante), tanto na população em geral como entre os profissionais de saúde.

São Valentim

De acordo com o INCB, o consumo de medicamentos opióides "fortes" em Portugal tem tido uma evolução inconstante, tendo sido de 47,5 mg de equivalentes de morfina per capita em 2012, ou seja, menos de um décimo do valor consumido nos EUA, menos de um terço do consumo em Espanha e menos de um sexto do consumo em França ou no Reino Unido. Saliente-se ainda que mais de 80% daquele consumo refere-se ao fentanilo, o qual nos EUA representa apenas 22% do total. A confirmar este baixo índice de consumo de medicamentos opióides no nosso país, um estudo realizado por um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina do Porto e publicado na revista Pain em 2013 demonstrou que em Portugal apenas 0,2% das pessoas com dor crónica utilizam medicamentos opióides "fortes".

Não existem dados sobre a utilização dos medicamentos opióides para fins recreativos em Portugal. No entanto, a mortalidade provocada por overdose de opióides (heroína, morfina, codeína e metadona) tem vindo a decrescer, tendo-se registado 85 óbitos em 2008 e apenas 23 em 2012 (dados do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, I.P. citados no relatório do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências). À semelhança do que sucede nos EUA, na maioria dos óbitos verificou-se a presença de mais de uma substância.

Is Dr. House in the house?

Em conclusão, o grande aumento do consumo ilícito de medicamentos opióides "fortes", e o consequente aumento da mortalidade por overdose que se observou nos EUA e no Canadá nos últimos anos, não foi "importado" para Portugal (ou para outros países Europeus), ao contrário de muitos outros comportamentos sociais. Consequentemente, não existem razões para o aumento da opiofobia já existente no nosso país, o que poderia prejudicar muito o alívio do sofrimento de quem padece de dor. Há que reconhecer que o problema surgiu num outro contexto, analisar cuidadosamente as suas causas e adotar medidas preventivas que passam por aumentar a educação e a vigilância sobre a prescrição e o consumo destes medicamentos. A este propósito, recomenda-se vivamente a quem estiver interessado nesta matéria a leitura de dois "position papers" muito recentes, designadamente o da European Pain Federation (disponível aqui) e o da Global Comission on Drugs (aqui). Ambos advogam a importância de se aumentar a formação dos profissionais de saúde sobre o correto tratamento da dor. O objetivo final, desde há longa data, é conseguir-se o equilíbrio adequado entre a necessidade de administrar estes medicamentos para o tratamento da dor moderada ou forte sempre que estiverem clinicamente indicados, e minimizar a sua utilização inadequada e as consequências que daí advêm.

Cátedra de Medicina da Dor, Departamento de Biologia Experimental, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Nota: A Organização Mundial de Saúde subdivide os medicamentos opióides em dois grupos, designados por "fracos" (ex. codeína, tramadol) e "fortes" (ex. fentanilo, hidromorfona, metadona, morfina, oxicodona, petidina).