O vírus da desinformação já contagiou os museus

Em poucos dias, desde que a pandemia nos reteve em casa, o Google conseguiu disponibilizar online os acervos de 500 museus. Inovação? Sim, mas o resto é falso.

Há uns minutos li num portal ligado à cultura: "perante esta pandemia do coronavírus, a Google Arte e Cultura decidiu unir-se com mais de 500 museus e estão a oferecer visitas virtuais a qualquer pessoa". Se houvesse prémios na categoria de desinformação na cultura, esta frase subiria ao palco.

Mesmo que não conhecêssemos o projeto "Google Arts & Culture", que é das iniciativas mais inovadoras na área da cultura desde que foi lançado em 2011 (antes com o nome "Google Art Project"), como é que seria possível criar visitas virtuais do acervo de 500 museus, de um momento para o outro, em resposta à recente contingência de ficarmos em casa?

Em Portugal e, pelo menos, no resto da Europa, o tema que domina os blogues, páginas de redes sociais e outros websites não-jornalísticos é a cultura. Já em 2013 o então editor de Cultura do The Guardian, Caspar Llewellyn Smith, me dizia que o principal concorrente da secção de Cultura daquele jornal - a mais rentável e a preferida dos leitores, confirmava-me - era o website não jornalístico especializado em cultura ou aquele blogger que sabia mais de música do que toda a redação.

De 2013 a 2020, estes websites cresceram e muitos tornaram-se "pro-ams" (profissionais-amadores) com alinhamento editorial, equipa e modelos de negócio rentáveis. Há bons exemplos de projetos editoriais ligados à cultura, mas outros replicam apenas notas de imprensa, transcrevem peças de outros órgãos de comunicação ou publicam conteúdos sem que haja um editor que assegure a sua qualidade. Têm toda a legitimidade em existir, mas não podem apresentar-se como órgãos de comunicação social (ou dar a entender essa qualidade indiretamente) quando não o são. Podem ser denominados de projetos editoriais, de criação de conteúdos ou até projetos de abordagem jornalística (designação que, aliás, uso em contexto universitário), mas não são órgãos de comunicação social. Já é altura de encontrar uma designação formal para estes projetos devidamente enquadrada num regulamento de conteúdos.

Quanto às visitas virtuais a museus, estas não foram criadas para substituir as experiências presenciais. Infelizmente, até alguns meios de comunicação social caíram no erro de mencionar a iniciativa da Google Arts & Culture como se fosse recente.

Já há algum tempo que os museus inovam em ambiente digital e no próprio espaço museológico. A experiência do visitante pode ser hoje presencial e digital, porque cada vez mais é a narrativa que importa, isto é, o contexto e a história dos objetos em exposição e não os objetos em si. Nesse sentido, a experiência estética pode ter vários níveis: se, na dimensão física, ela começa imediatamente no espaço público que circunda o museu (não é por acaso que alguns dos museus mais bem-sucedidos inovam tanto dentro como fora de portas), em ambiente digital o espaço público virtual começa no seu website ou app.

Na Europa e em contexto museológico, talvez a iniciativa digital mais consistente seja a francesa Culturespaces. O projeto é mais conhecido por ter criado o primeiro centro de arte digital em Paris - Atelier de Lumières - com a exposição imersiva da obra de Gustav Klimt, mas as diversas experiências de comunicação que criaram para monumentos históricos e museus são também interessantes (e estão disponíveis para qualquer pessoa com acesso à Internet). Basta aceder ao menu "Découvrir" (disponível também em inglês) dos websites do Musée Maillol, do Théâtre Antique & Musée D"Orange ou do Cité de L" Automobile.

E, já agora, porque há tempo, também vale a pena visitar o Google Arts & Culture, que é muito mais do que visitas virtuais de museus. Além de reunir a maior parte das tendências da comunicação digital da cultura, desde a curadoria temática a vídeos a 360 graus, tem uma área de experimentação que cruza as fronteiras entre a arte e tecnologia, concebida por artistas e programadores criativos. Esta última vale mesmo a pena.

Docente na NOVA FCSH

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