O trabalho mais impossível do mundo

Quando no dia 9 de abril de 1953 Dag Hammars-kjöld aterra em Nova Iorque para assumir o cargo de secretário-geral das Nações Unidas (SGNU), o seu antecessor dá-lhe as boas-vindas, advertindo-o de que se preparava para ter "o trabalho mais impossível do mundo."

Trygve Lie referia-se ao contexto da época e à difícil conciliação entre os interesses das grandes potências, Estados Unidos e União Soviética, das suas mundivisões e modelos de organização político-económico-social.

Embora a Carta da ONU diga que o SGNU é o mais alto funcionário da Organização, ele não é apenas um burocrata. O lugar está investido de um grande poder político e de um imenso poder simbólico, diplomático e de execução. Encabeçando uma estrutura com cerca de 43 mil funcionários por todo o mundo, o secretário-geral é o verdadeiro dinamizador do trabalho da ONU e é mesmo ele quem chefia as missões de paz da Organização. O seu poder diplomático, de negociador e de mediador faz dele, e da ONU, uma fonte de legitimidade internacional e o facilitador honesto de eventos como as grandes cimeiras climáticas, os inúmeros acordos de paz e cessar-fogo, passando pela crucial agenda de desenvolvimento. Tudo isto é feito pela ONU ou sob a sua égide, e o secretário-geral é o rosto que conhecemos.

A escolha de um novo ocupante para o lugar está prestes a começar e desta vez há um apelo, via resolução da Assembleia Geral, para que os Estados façam deste um processo verdadeiramente transparente e competitivo, nomeando os candidatos, apresentando os respetivos currículos e visões para a Organização, e até envolvendo a sociedade civil, nós, os povos das Nações Unidas.

E Portugal já o fez, antecipando que proporá o nome de António Guterres, até há pouco alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Construindo uma candidatura em cima da experiência passada e recente do português, do seu impossível trabalho criando um espaço humanitário mais digno para milhões de refugiados e agregando, espera--se, argumentos como o português ser uma língua falada por mais de 250 milhões de pessoas, de o candidato ser oriundo de uma potência média europeia - há um acordo não escrito que veda o lugar aos nacionais dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança - a campanha está prestes a começar.

Em paralelo, e com bastante visibilidade, corre o esforço de mostrar que a costumeira diversidade geográfica tem de ser acompanhada pela preocupação com a igualdade de género e abundam os apelos à eleição de uma mulher. Nunca na sua história a ONU teve uma mulher secretária-geral.

Uma coisa parece, no entanto, segura: o próximo ocupante do 38.º andar da sede da ONU será europeu - a rotatividade por grupos geográficos assim o indica. A grande dúvida permanece no quão transparente este processo será.

Há 70 anos que a escolha é, para usar um eufemismo, opaca: um acordo entre os 15 Estados do Conselho de Segurança, no qual os membros permanentes podem exercer o veto (os Estados Unidos fizeram-no para vetar o segundo mandato do egípcio Boutros-Ghali), posteriormente carimbado pela Assembleia Geral.

É esta a encruzilhada a que a ONU chega hoje: mais do que escolher um general ou um secretário, homem ou mulher, um europeu ou alguém de outras paragens, o que importa é que se perceba que o trabalho mais impossível do mundo precisa de alguém com visão e capacidade de ação, alguém para quem, mesmo sendo impossível, este seja o melhor trabalho do mundo. António Guterres saberá fazê-lo melhor do que ninguém.

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