O recente acordo entre os Emirados Árabes Unidos e Israel sobre a normalização das relações entre eles, mediado pelos EUA, é o novo elemento do quebra-cabeça do Médio Oriente, que está a ficar cada vez maior e mais complicado de resolver. As duas partes do acordo e o intermediário norte-americano, anunciaram-no orgulhosamente há poucos dias, acrescentando vários pontos de interrogação à situação que já é difícil de entender. Qualquer novo acordo entre o Estado judeu e qualquer país árabe é considerado uma boa notícia no Médio Oriente, porque é algo que deve melhorar a estabilidade da região. Infelizmente, neste momento, é preciso dizer que está longe de ser claro quais serão as consequências do novo acordo e quem o irá seguir no mundo árabe e estabelecer relações com Israel..O acordo é o primeiro passo para a normalização das relações entre os dois países. Deve ser seguido de outros acordos específicos, na área do turismo, economia, voos diretos, segurança, abertura de embaixadas. Do ponto de vista israelita, os Emirados Árabes Unidos são o país que já se esperava que divulgasse as suas relações com Israel, que já existiam, mas sempre atrás da cortina. Para o primeiro-ministro de Israel, parece uma grande vitória e vai ajudá-lo se ele decidir candidatar-se novamente a mais umas eleições, o que pode acontecer, acredite-se ou não. Do ponto de vista dos Emirados Árabes Unidos, o profundo envolvimento dos Estados Unidos, o problema da ameaça iraniana no Golfo e os atritos dentro do Conselho de Cooperação do Golfo com o Qatar foram os elementos que pesaram mais do que qualquer crítica que se pudesse antecipar..Para defender a decisão, os governantes dos Emirados Árabes Unidos obtiveram a concordância de Israel em não anexar grandes partes da Cisjordânia e do vale do Jordão, o que estava planeado para acontecer em breve. Pelo menos, a concordância em não o fazer agora. Mas há outras questões que vêm à tona com o acordo e que terão de ser tratadas. Primeiro, acabou a iniciativa árabe de 2002 de interligar a resolução do problema palestino por Israel com a normalização das suas relações com o mundo árabe. Israel obviamente fê-lo com pelo menos um estado árabe e é provável que algum outro na região se possa seguir (talvez Bahrein e Omã?). A ameaça iraniana aos pequenos estados do Golfo foi decididamente um elemento importante que os estava, e está, a levar em direção a Israel e ao atual governo norte-americano. Nota-se facilmente um grande aumento de atividades do Irão no Médio Oriente e os governantes do Golfo têm verdadeiros motivos para se preocuparem..Assim, os Emirados Árabes Unidos estão a receber forte apoio de Washington, a abrir-se para negócios com Israel e, através deste, a fortalecer a sua defesa do Irão e, no plano político, até do Qatar. Israel mostrou que está a conseguir romper a frente de rejeição do mundo árabe e a normalizar as suas relações com ele, sem grandes concessões, exceto atrasar a anexação de partes da Cisjordânia. Isso será criticado apenas pelos colonos judeus que lá vivem, mas não tanto pelo próprio país. Os EUA e o presidente Trump estão a mostrar que ele e os seus negociadores podem criar algo importante no Médio Oriente quando o plano anterior de trazer israelitas e palestinianos à mesa de negociações não funcionou..Mas a história não termina aqui. Existem outros estados árabes, fora do Golfo, que podem ver a oportunidade de conseguir de Washington algo que nunca conseguiram até agora. Por exemplo, Marrocos. Este país norte-africano tem um problema com o Saara Ocidental desde 1975, quando o invadiu após a retirada espanhola. A anexação nunca foi reconhecida pela comunidade internacional e é fortemente contestada pela Argélia, que apoia a independência daquela região. Marrocos assinaria um acordo com Israel se Washington oferecesse o reconhecimento da soberania marroquina sobre o Saara Ocidental? Muito possivelmente, devido a algumas razões. Primeiro, Marrocos alcançaria uma grande vitória na região. Em segundo lugar, já tem laços com Israel, por causa dos milhares de israelitas originários de Marrocos e só pode beneficiar economicamente com a aproximação ao Estado judeu. De momento, isso é apenas uma possibilidade, mas não muito longe da realidade, diríamos. Também seria bom mencionar que tanto os Emirados Árabes Unidos quanto Marrocos tiveram os seus representantes em Telavive durante os anos noventa do século passado, até ao colapso da implementação do Acordo Provisório entre Israel e a Autoridade Palestina..O princípio é muito claro. Como os palestinos não aceitaram as negociações baseadas na proposta americana de 23 de janeiro deste ano, o foco de Washington mudou para outros estados árabes, que poderiam receber algo em troca, e isso não foi um problema para a atual administração americana. Qualquer novo acordo mencionará a necessidade de respeitar os direitos palestinos e isso bastará para que alguns países voltem a sua atenção para si mesmos, da mesma forma que o presidente americano Trump diria: "América primeiro"..Mostra também que qualquer sucesso do primeiro-ministro israelita Netanyahu se torna imediatamente o sucesso do governo Trump, o que só pode provar a posição forte do político israelita em Washington. O único obstáculo a essa política pode estar nas eleições americanas, mas quanto a isso Jerusalém apenas pode ajudar, mas não decidir..O Médio Oriente sempre foi um lugar muito complicado e a conclusão é que com o novo desenvolvimento o será ainda mais. O mundo árabe está cada vez mais dividido, Israel sabe disso e é de esperar que use essa divisão. Para os palestinianos, tudo já está fora do seu controlo e não há muito que eles possam fazer. Apenas esperar por tempos melhores..Toda a gente vai falar sobre eles, mas não com eles, como um comentador político disse recentemente. Poderíamos piorar ainda mais as coisas perguntando quais palestinianos?.Antigo embaixador da Sérvia e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE