O Mali e a Cimeira de Nouakchott

O Mali vive actualmente uma fase de contestação ao seu Presidente (PR) Ibrahim Boubakar Keita (IBK), em consequência de um agravamento da segurança no país. Em suma, a proliferação de grupos e grupúsculos jihadistas não acontece apenas no norte, tendo-se deslocalizado para o centro, colocando cada vez mais em perigo a Capital Bamako e populações que até há pouco estavam imunes às investidas prosélitas e recrutadoras dos islamistas, o que se agravou com a crise económica, que não tem data, já que é permanente. Este alastrar territorial do ideário islamista é sobretudo fruto da parca presença do Estado no vasto território desértico do Norte, o que também teve como consequência o surgimento de milícias de defesa étnica, no seio de certos grupos que não tiveram alternativa, perante o caos reinante que também contempla ladrões de gado e acesso a pontos de água.

Esta contestação ao PR IBK, a qual pede a sua demissão, é liderada pelo Imam Mahmoud Dicko, cuja verve e autoridade religiosa conseguiram unir toda a oposição em seu redor. Sobre este aspecto, gostaria também de salientar que é minha profunda convicção que este "momento Covid", perante o qual comunidades islâmicas são confrontadas com mesquitas fechadas, o Ramadão sem festa, a actual Peregrinação a Meca apenas possível a sauditas e residentes estrangeiros no reino e também as respostas à pandemia sempre procuradas e apresentadas no âmbito da ciência e medicina, criam no indivíduo a necessidade da compensação, aderindo ainda mais ao discurso religioso e à mobilização de rua. Daí este momento estar a ser devidamente capitalizado pelo Imam Dicko, o que a 3 anos de distância das próximas Presidenciais, lhe dá o conforto da gestão e do comando da rua, sem a necessidade de apostar num "quanto pior melhor".

A Cimeira de Nouakchott

No final de Junho realizou-se em Nouakchott, Sede do G5-Sahel, reunião magna entre os 5 países do Sahel que integram este grupo, a França representada pelo PR Macron, a Espanha representada pelo PM Pedro Sanchez e com a Chanceler Merkel e o Secretário-Geral Guterres, atentos e participativos através de vídeo-conferência. Este encontro veio confirmar a Cimeira de Pau de Janeiro último, durante a qual o PR Macron, após convocar os ex-colonizados para o "beija-mão" na "metrópole", deu um "murro na mesa" na abertura da mesma, questionando de forma clara as lideranças regionais se queriam a continuidade da presença militar francesa ou não!

Esta postura do PR Macron deriva da impopularidade que as tropas francesas gozam no momento actual, enquanto a Operação Barkane se desenrola com acesso à mais recente tecnologia, sendo precisamente isso que é incompreendido pelas populações. "Então estes tipos até têm drones e não conseguem apanhar os terroristas? Não apanham porque não querem!" Vão verbalizando os locais, que acreditam que um homem e um computador são imbatíveis.

Mas Nouakchott 2020, com uma França mais confortável, já que acompanhada pela União Europeia e pelas Nações Unidas, realizou-se com o sentido na Líbia e nas consequências do evoluir da tensão entre Tripolitânia e Cirenaica, que mais cedo que tarde, extravasará para a Província Sul, Fezzan, afectando de novo o Sahel, nomeadamente o Chade e República do Sudão, com o regresso aos territórios de origem das milícias tribais ao serviço do LNA do Marechal Haftar. Ou seja, corre-se o risco de um replicar do cenário Mali-2011/12, após a morte do Coronel Kadhafi e o regresso da sua Guarda Pretoriana tuaregue às origens, montada numa frota de 4x4"s, caixas de dinheiro, de armas e toda uma vida de hábitos de guerra e de conspiração. Ficou o alerta nos espíritos, já que o assunto não fez parte da agenda oficial.

Numa outra perspectiva, a França, numa posição incómoda na Líbia, já que em confronto com outros dois membros da NATO (Turquia e Itália) e do lado dos russos, sente a responsabilidade de ter que ter "artes" para conseguir gerir o ingerível desde Tobruk, na Líbia, a N'Djamena, no Chade. A França reforça desta forma a necessidade e a decisão tomada na ressaca das "primaveras árabes", de que teria que compensar/confirmar em África, na "sua África", tudo aquilo que perdeu para os americanos no Médio Oriente, sendo o vasto Sahel o palco ideal para tal.

Um brinde final de regozijo efectuado por todas as delegações presentes na Cimeira de Nouakchott, demonstrativa também da importância da presença da França na Região, pela eliminação física de líder da Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (AQMI), Abdelmalek Droukdel, no Mali e no âmbito das acções de patrulha da Operação Barkane. A prova, desde logo, da importância da presença da França no Sahel, conforme reconhecido pelos líderes locais presentes em Pau no início do ano.


Politólogo/Arabista
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O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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