O legado incerto da cimeira de Singapura

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, regressou da sua curta cimeira em Singapura com o líder norte-coreano Kim Jung-un com uma disposição exultante. "Toda a gente pode agora sentir-se muito mais segura do que no dia em que assumi o cargo", escreveu Trump no Twitter. "Já não há uma ameaça nuclear por parte da Coreia do Norte." Posteriormente disse aos repórteres: "Eu resolvi esse problema."

Há apenas um senão: o que Trump afirmou é falso. A ameaça nuclear representada pela Coreia do Norte permanece inalterada. O comunicado conjunto emitido pelos dois líderes foi tão breve - apenas 391 palavras - quanto vago.

A declaração foi muito mais sobre expectativas do que sobre realizações. A Coreia do Norte comprometeu-se apenas "a trabalhar para a completa desnuclearização da Península Coreana". Faltava qualquer definição do que a desnuclearização poderia implicar, um cronograma de implementação ou uma referência a como as ações seriam verificadas. Outras questões relacionadas com armas nucleares, incluindo mísseis balísticos, nem sequer foram mencionadas. Até agora, pelo menos, o acordo com a Coreia do Norte sai desfavorecido quando comparado com o acordo nuclear com o Irão que Trump denunciou e ao qual depois renunciou, um mês antes de se encontrar com Kim.

Não estou a dizer com isto que a cimeira de Singapura não teve importância. Pelo menos por enquanto, as relações bilaterais estão num lugar melhor do que estavam há um ano, quando a Coreia do Norte levava a cabo testes nucleares e de mísseis, e os observadores (incluindo eu) estavam a calcular as hipóteses de os dois países começarem uma guerra. E, olhando para a frente, há, em princípio, a possibilidade de que os Estados Unidos e a Coreia do Norte consigam chegar a um acordo sobre as muitas questões e detalhes relevantes que a declaração da Cimeira de Singapura deixou de fora.

Mas transformar essa possibilidade em realidade será extraordinariamente difícil. Há muitas razões para duvidar se a Coreia do Norte abandonará o armamento que, mais do que qualquer outra coisa, explica a disposição dos Estados Unidos em levá-la a sério e tratá-la de alguma maneira como igual. Além disso, a experiência da Ucrânia, um país que abandonou as suas armas nucleares, apenas para ver o mundo não fazer nada quando a Rússia anexou a Crimeia, dificilmente dá uma razão a Kim Jung-un para seguir o exemplo. O mesmo poderia ser dito da Líbia, dado o destino do coronel Muammar Kadhafi.

Há também boas razões para duvidar de que a Coreia do Norte, possivelmente o país mais fechado e secreto do mundo, alguma vez permitisse o tipo de inspeções internacionais intrusivas que seriam necessárias para verificar se havia cumprido os compromissos estabelecidos em algum pacto futuro.

Trump parece pensar que Kim pode ser influenciado não apenas por ameaças e pressões, mas por lisonjas e promessas também. A Casa Branca divulgou um vídeo de quatro minutos que mostrava Kim como alguém que poderia ser uma grande figura histórica bastando para isso que mudasse fundamentalmente. O vídeo também se esforçou muito para mostrar o que a Coreia do Norte poderia ganhar economicamente se atendesse às exigências dos EUA. O presidente chegou a falar do potencial do norte como local de desenvolvimento imobiliário e de turismo.

O que parece não ter ocorrido a Trump é que tal futuro contém mais riscos do que promessas para alguém cuja família governou com mão de ferro por três gerações. Uma Coreia do Norte aberta aos empresários ocidentais pode ver-se rapidamente invadida pelas ideias ocidentais. Seguir-se ia certamente a agitação popular.

Trump enfatiza a importância das relações pessoais e afirmou ter desenvolvido uma boa relação com Kim em questão de horas. Mais de uma vez, ele falou da confiança que tinha num líder com um registo de matar aqueles (incluindo um tio e um irmão) que considerava seus inimigos. Tudo isso inverteu a máxima de Ronald Reagan - "confie, mas verifique" - para qualquer coisa como "não verifique, mas confie".

De facto, algumas das observações pós-cimeira de Trump enfraqueceram as hipóteses de alcançar os objetivos. A sua descrição da cimeira como um grande sucesso que resolveu o problema nuclear tornará muito mais difícil manter o apoio internacional às sanções económicas que ainda são necessárias para pressionar a Coreia do Norte. Trump também não fez nenhum favor a si próprio ao anunciar unilateralmente que os EUA não levariam mais a cabo o que ele descreveu como jogos de guerra "provocadores", também conhecidos como exercícios militares destinados a assegurar a prontidão e a aumentar a dissuasão. Ao fazê-lo, ele não só alarmou vários aliados dos EUA, como também ofereceu aquilo que poderia ter usado como moeda de troca para obter qualquer coisa da Coreia do Norte.

O perigo, claro, é que as negociações subsequentes falhem, por todas essas razões, no que respeita a conseguir a completa e verificável desnuclearização da Coreia do Norte que os EUA disseram que deve acontecer em breve. Trump provavelmente acusará então Kim de trair a sua confiança.

Nesse caso, os EUA teriam três opções. Poderiam aceitar menos do que a desnuclearização completa, um resultado que Trump e os seus principais assessores disseram que iriam rejeitar. Poderiam impor sanções ainda mais rigorosas, com as quais a China e a Rússia provavelmente não concordarão. Ou poderiam reintroduzir a ameaça da força militar, ao que a Coreia do Sul, em particular, resistiria.

Mas se Trump concluir que a diplomacia fracassou, ele poderá, no entanto, optar por uma ação militar, um rumo que John Bolton sugeriu pouco antes de se tornar conselheiro de segurança nacional. Este dificilmente seria o legado que Trump pretendia para o encontro de Singapura, mas continua a ser mais possível do que os seus tweets otimistas querem fazer crer.

Richard N. Haass é presidente do Conselho de Relações Exteriores e autor de A World in Disarray

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