O desenvolvimento em tempos de incerteza

Incerteza será provavelmente o atributo que melhor descreve os tempos que hoje vivemos. Desde logo a propósito do poder. Sobre a capacidade de resiliência de regras e instituições criadas após a segunda grande guerra para evitar ou dirimir conflitos violentos entre Estados e para impedir novas tragédias causadas por interesses comerciais opostos. Estas são hoje fragilizadas pelas reconfigurações geopolíticas iniciadas com o fim da Guerra Fria, bem como pelo ressurgimento de potências regionais e pela diversidade de novos atores na cena internacional.

Também pelos novos ambientes de Segurança. A par do reacendimento de antigos conflitos entre Estados, que mais do que resolvidos estavam contidos, ressurgem conflitos identitários, nacionais ou religiosos, que parecem fazer colapsar o tempo. Na verdade, é notável a coexistência de guerras religiosas características do tempo das cruzadas, de conflitos nacionalistas típicos dos contextos da primeira grande guerra no século XX, ou de ameaças que nos fazem regressar aos ambientes da Guerra Fria.

Ainda, dada a súbita fragilidade evidenciada pela globalização. Uma realidade que nos parecia ancorada nos avanços tecnológicos e nos interesses económicos e empresariais das democracias liberais, é hoje ameaçada pelo aumento das desigualdades sociais a par de enormes concentrações de riqueza. Desigualdades que extravasam largamente as fronteiras geográficas entre norte e sul e que são acompanhadas não só por tensões sociais e lutas políticas e sindicais, mas também pelo crescimento de posições antiglobalização.

Por outro lado, pela degradação das condições de vida do planeta. A aceleração de mudanças climáticas e de fenómenos de desertificação, em paralelo com o crescimento demográfico, põe em causa a sustentabilidade das condições de vida em cada vez mais zonas do globo. Estas realidades induzem o agravamento de conflitos e desastres sociais e expõem tensões entre interesses locais e globais que têm levado ao abandono ou ao desrespeito por acordos multilaterais, que se revelam quase tão frágeis quanto necessários.

Certamente pelo reflexo destas e de outras dinâmicas sobre as pessoas. O aumento das migrações e desastres humanitários, a degradação do ambiente e a escassez de água e terra arável, a desvalorização do trabalho, as contrações no rendimento das classes médias nos países industrializados. Não obstante a diminuição da pobreza absoluta e a expansão de classes médias em vários países em desenvolvimento, o crescimento de populismos e da xenofobia pressionam hoje governos e regimes democráticos.

Por fim, pelo rumo e pela continuidade da integração na Europa. O aumento de pulsões nacionalistas e a rejeição de modelos centralistas, a evidente crise dos partidos políticos tradicionais e a ausência de lideranças políticas são fenómenos evidentes. Os movimentos e as ideias pró-europeístas, que caracterizaram as primeiras décadas da construção europeia e do pós-Guerra Fria, parecem hoje distantes das prioridades dos cidadãos e, com particular relevo político, longe das preocupações das atuais gerações.

O debate sobre estas incertezas do desenvolvimento será feito na edição deste ano das Conferências de Lisboa, a 3 e 4 de maio, na Fundação Calouste Gulbenkian, na qual participarão cerca de três dezenas de investigadores e analistas políticos portugueses e de uma dúzia de outros países.

Professor Universitário e Diretor Executivo do Clube Lisboa

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