O confinamento em Lisboa

Como muitos outros espanhóis, e ainda mais nestes tempos tão difíceis, continuo a repetir que, pelo menos, resta-nos Portugal. Quando comparamos a situação que se está a viver em Espanha, com quase 12 000 mortos e o quarto maior número de contagiados pelo vírus em todo o mundo, com a de Portugal que, ainda que preocupante, deixa uma abertura à esperança, só posso dar graças por viver estes tristes dias em Lisboa. Além do mais, o confinamento em Portugal tão-pouco atinge os níveis de dureza e de rigor que foram necessários em Espanha. Aqui pode-se sair, ainda, para dar um pequeno passeio ou, os mais desportistas, para correr uns quilómetros para se manter a forma, enquanto em Espanha essas atividades estão totalmente proibidas e são severamente punidas pela polícia.

Talvez seja nestes detalhes que se comprova a diferente idiossincrasia de portugueses e espanhóis. Enquanto os primeiros ficam disciplinadamente em casa, saindo o imprescindível e guardando sempre pacientemente a distância nas filas de farmácias e supermercados, para que os espanhóis respeitem essas mesmas normas, é necessário esgrimir todo o peso da lei.

Nestes dias tão marcantes, gostaria de voltar à casa de família, situada a poucos quilómetros de Ficalho. Não é possível, nem tão-pouco, ainda que o fosse, seria recomendável. A fronteira está fechada a sete chaves, como um símbolo do importante que é, hoje, sermos capazes de manter entre todos, já não uma distância social, que entre os dois lados da nossa raia é impossível, mas sim um afastamento físico temporário que, logo que acabe este pesadelo, desaparecerá de novo e oxalá que para sempre.

Nestes dias sentimos a falta de muitas coisas. Um dos muitos encantadores costumes espanhóis consiste em estrear uma peça de roupa nova no Domingo de Ramos. O objetivo, claro, é sair-se vistoso e bem-arranjado à rua para participar na Procissão dos Ramos, toda a gente com um fato ou um vestido novo. Hoje, nas circunstâncias em que nos encontramos, com as lojas fechadas a sete chaves, depois de muito vasculhar nas gavetas, encontrámos um par de meias novas: já é alguma coisa. Não tendo sido possível encontrar um raminho de oliveira, algumas folhas da palmeira anã que definha na varanda deram um ótimo resultado.

Em Espanha, tal como em Portugal, foram-se cancelando todas as atividades que envolvem multidões próprias desta época. Foi um autêntico drama, sobretudo na Andaluzia, cancelar as procissões da Semana Santa e também, em Sevilha, a Feira de Abril. Hoje, as redes sociais amanheceram cheias de fotografias do que foi o Domingo de Ramos do ano passado e assim continuarão, dia após dia, até ao dia da Ressurreição, recordando-nos que, ainda que estejamos em casa, os nossos corações passeiam pelas ruas e encontram-se com familiares e amigos a cada passo.

Nos dias úteis, graças às comunicações atuais, vamos conseguindo manter, melhor ou pior, o ritmo de trabalho. Os fins de semana, no entanto, tornam-se estranhamente longos. Em vão tentamos preencher as horas com todas aquelas atividades que tinham ficado relegadas para quando tivéssemos tempo suficiente. Organiza-se o caos dos livros, cada dia mais rebeldes, tanto que parecem multiplicar-se por artes mágicas. Dão-se os retoques de pintura nos cantos e rodapés. Organiza-se a roupa de vestir, certamente demasiada, que enche os armários, para assim descobrirmos que ainda temos aquele par de meias para estrear neste Domingo de Ramos.

A Semana Santa será ainda mais difícil. Talvez as horas em casa se tornem ainda mais longas. Continuaremos a falar todos os dias com os familiares que estão do outro lado da fronteira, leremos muito e talvez se escreva um pouquinho. Ouviremos muita música e daremos muitos passeios por essa cidade nova e desconhecida que é a Lisboa confinada. Mas, sobretudo, esperamos com toda a nossa alma que em breve, muito mais em breve do que imaginamos e graças ao esforço de todos os que vivemos em Portugal, sem que seja necessário ameaçar-nos com o peso da Lei, cada um possa voltar às suas rotinas habituais.

Funcionário da UE e escritor

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