O bocejo da nação

O debate anual do Estado da Nação, no qual o governo em exercício supostamente presta contas à oposição sobre mais um ano de governação, transformou-se numa discussão sobre o défice de 2015 e sobre as sanções que a Europa, agora dos 27, pode vir a impor a Portugal. O resumo não é encorajador. Visto daqui de fora, longe das bancadas do Parlamento, através da fiel transmissão do canal da Assembleia da República, o debate foi um prolongado bocejo, mal disfarçado com pequenas irritações que não emocionam o país - embora o país também não tivesse sido para ali convocado.

António Costa fez o que fazem os primeiros-ministros: afirmou que o estado do país é melhor em 2016 do que no ano passado. Para o PM, a palavra--chave deste debate era "cumprimos". "Nós cumprimos e nós agimos. É isso que nos cabe fazer", garantiu.

O verdadeiro centro do debate era o défice. E, claro, as sanções - que talvez nem venham a existir, ou sejam simbólicas, como pede o Presidente Marcelo.

A realidade é que o governo tem conseguido que a coligação que o sustenta funcione. E esse era o verdadeiro pano de fundo deste debate. Afinal, o PS que não ganhou as eleições e que chegou ao poder através de uma inesperada aliança com dois inimigos naturais, o Bloco e os comunistas, "aguentou-se". Esse é, até agora, o maior feito de Costa, que tanto a oposição como o país comentam não sem alguma admiração.

No resto, o debate foi o que se esperava: dois ou três discursos de fundo e uma mão-cheia de pequenas ou médias picardias que não ficam na memória.

"Há uma primeira vitória importante da diplomacia portuguesa, a de garantir que a comunicação da Comissão constata um simples facto sem propor qualquer tipo de consequência". Foi assim que o primeiro-ministro atribuiu ao ministério de Santos Silva os louros por a Comissão Europeia não ter proposto uma sanção concreta contra Portugal. Como se esse facto não dependesse do estado da Europa - esse sim, bem merecia um debate prolongado, com as quatro horas que os partidos gastaram a discutir as hipotéticas sanções ao défice de 2015. O resumo do dia fica mais ou menos assim: para António Costa, "os portugueses estão melhor e o país está melhor". Pedro Passos Coelho explicou que o agravamento do défice estrutural de 2015 ficou a dever-se a "uma revisão que o próprio INE fez ao PIB de 2012". O antigo primeiro-ministro acusou o atual governo de estar a destruir o que o seu governo fez e de estar a pôr em risco tudo o que Portugal consegui em matéria de ajustamento. Passos Coelho defendeu que sem os colapsos da banca o défice de 2015 seria de 2,8%, dentro dos limites dos tratados orçamentais. E Costa ripostou no pingue-pongue habitual: "A conta do Banif não é deste governo; é a conta que os senhores [PSD e CDS] esconderam porque não tiveram coragem de resolver."

Telmo Correia teve a seu cargo o soundbyte do debate: "Portugal está novamente no radar da desconfiança."

Ao socialista Augusto Santos Silva coube um papel que veste com desenvoltura, o de bater na direita: "O povo sabe bem como tratar aqueles que parecem fazer depender o seu sucesso político particular do insucesso do país", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros.

E Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, encerrou o debate do Estado da Nação cerca de quatro horas depois do seu início. Ufff.

O país encalorado pôde passar ao que interessava: o jogo entre a França e a Alemanha.Se Portugal for campeão da Europa, o Estado da Nação, e dos portugueses, será certamente outro.

Advogada

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