Negros e brancos

Há dias cem pessoas negras assinaram uma carta aberta cuja finalidade principal é dar conta da sua total oposição à criação de um Museu dos Descobrimentos. Estas pessoas estão erradamente convencidas de que esse eventual museu teria a intenção ou o efeito de hostilizar os afrodescendentes, ou a memória que certos afrodescendentes conservam de factos ocorridos em séculos passados. Nas sociedades modernas, abertas, democráticas, tendencialmente igualitárias e multiculturais, é verdadeiramente paradoxal que estas coisas aconteçam, mas a verdade é que vemos a cada passo surgirem ideias essencialmente separatistas, como esta, da parte de gente que se diz antirracista. Há negros que acham que apenas pelo facto de o serem constituem um grupo à parte.

É preocupante que haja gente que vê e lê sinais de hostilidade e de racismo em tudo o que mexe, mesmo nas melhores intenções. É claro que há pessoas racistas em Portugal, não pretendo negá-lo, mas nada indica que a generalidade dos portugueses o seja, ou que o país viva embebido num racismo espesso e asfixiante que toque tudo e todos. As pessoas que sentem assim a realidade não estão a ver bem e tomam constantemente a nuvem por Juno. No romance The Human Stain, Philip Roth captou muito bem esse tipo de pessoas e o dano que a sua perspetiva distorcida pode provocar. No início do romance temos uma universidade norte-americana e um professor de estudos clássicos que, intrigado pela continuada ausência de duas alunas cujos nomes constavam da lista, mas nunca tinham aparecido, perguntou à turma se alguém as conhecia: "do they exist or are they spooks?" Sucede que a palavra "spook" significa fantasma, mas também se utiliza para designar pejorativamente um negro. Por infeliz coincidência, as alunas faltosas eram de origem africana (coisa que o professor ignorava). Tomando conhecimento do que fora dito a seu respeito e sentindo-se ofendidas, participaram o facto, acusando o professor de racismo. O barulho causado pelo episódio dos spooks, os humilhantes inquéritos, a vociferação dos grupos radicais antir-racistas, a repugnante falta de solidariedade dos colegas, empurraram o professor para a demissão e terão contribuído para a morte da sua mulher. A ironia da situação é que, se bem que isso não fosse muito evidente na sua aparência física, o professor em questão era descendente de africanos.

Coisas destas acontecem a torto e a direito, desta ou de outra forma, no hipersensível mundo ocidental atual. Acontecem, naturalmente, a quem se atreva a tocar em temas como descobrimentos, colonialismo ou escravatura de uma forma que saia dos cânones que os ativistas antirracismo consideram válidos e aceitáveis, e eu tenho tido a minha dose de acusações de racismo, claro. A última acusação é, ao que me dizem, que eu teria afirmado que não lia historiadores negros. Não sei quem pôs essa venenosa mentira a circular, nem isso interessa. O que interessa é afirmar que nunca disse que não lia historiadores negros pela muito simples razão de que li dezenas. Continuo, aliás, a lê-los porque não escolho as minhas leituras historiográficas ou outras pela cor da pele dos autores, mas pela qualidade da sua investigação e da sua escrita. Nos meus livros estão referidos muitos historiadores negros que li, em certos casos com prazer, admiração e proveito (Orlando Patterson, por exemplo), noutros com esforço, não por serem negros mas por serem maus.

É esta distinção entre bom e mau, legítimo e ilegítimo, verdadeiro e falso, ajustado e desajustado que parece ter sido inteiramente varrida do nosso horizonte e dos nossos sistemas de valoração. Ora, essas são as distinções que realmente importam, não as da cor da pele. Infelizmente, há demasiada gente a reagir epidermicamente, como se o facto de ser negro ou branco implicasse alguma qualidade ou defeito especial. Como se a verdade histórica tivesse cor ou fosse o feudo de um determinado grupo e um historiador negro não pudesse escrever a história do meu país, ou um historiador branco a de Angola. Ou, então, como se um museu essencialmente destinado a evocar a aventura marítima e a expansão territorial dos portugueses, a partir do século XV, fosse feito a favor dos brancos contra os negros.

Historiador e romancista

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