Nathan Mucznik - o Filho Dilecto de Duas Pátrias

Nasceu há noventa anos em solo de Portugal.
Morreu há poucas semanas, em Israel, acolhido no seu eterno descanso.

Ambos, Portugal e Israel, foram a sua pátria. O primeiro foi o país que os seus pais, Salomon e Helena, escolheram para viver e que amou até ao fim da vida. O segundo foi o país que ele mesmo escolheu, acorrendo ao chamamento ancestral que a Guerra dos Seis Dias ajudou a decidir ao materializar-lhe um sonho, a visão sionista. Também este Nathan amou até ao último sopro. A mesma raíz, a mesma seiva, dois ramos entrelaçados em plena harmonia numa personalidade grande e cheia cuja bondade transpirava sem passar despercebida aos que tiveram a sorte de o conhecer. Aos outros, menos afortunados, leiam-me agora e olhem com atenção para as fotografias que acompanham estas linhas.

Dir-me-ão: não compliquemos as coisas. A vida dos homens pauta-se pelos mesmos ciclos com que se pauta a natureza e ad summam nasce-se e morre-se. Regressa-se ao leito telúrico de onde todos provimos e fecha-se o círculo. E ponto.
Mas e tudo o que está entre os extremos do nascer e do morrer?
E esse peso e essa medida de quão genuinamente se deixa o Tempo pincelar-nos a alma de cores verdadeiras?
Quero, pois, falar-vos das cores mais vívidas da alma de Nathan Mucznik.

Nasceu em Lisboa em a 23 de Março de 1930. Casou em 1952 com Sonia Halpern.
Quando emigraram para Israel, em 1967, levavam já consigo a grande e bonita família que tinham construído. Quatro filhos: Dani, Susi, Silvia e Rafi. Viveram primeiro no bairro de Ramat Aviv e mais tarde no de Tel Baruch norte, a poucos metros da minha própria residência, na cidade de Tel-Aviv Yafo. Em Israel, Nathan teve escritório na Bolsa de Diamantes de Tel-Aviv, negócio que já tinha em Lisboa, Porto e Madrid. Sonia doutorou-se em História de Arte pela Universidade de Tel-Aviv e continua, até hoje, a escrever artigos de história de arte sobre o período greco-romano.

Se um outro chamamento tinha deixado Portugal para trás na geografia deste homem, no seu coração e na sua acção tal não sucedeu.

Nathan foi Cônsul Honorário de Portugal em Israel. Abriu o Consulado de Portugal em Tel-Aviv em 1988, às suas custas, quando não havia ainda sequer Embaixada de Portugal, o que só viria a acontecer em 1991. Em plena Guerra do Golfo e sob a chuva ininterrupta de mísseis iraquianos, Nathan negociou pessoalmente com o Egipto a transferência voluntária de centenas de trabalhadores portugueses para daí regressarem a Portugal. "Trabalhavam em Israel operários portugueses, que estavam bastante desorientados com toda aquela conjuntura. As ameaças e os ataques sucediam-se e todas as instruções que eram dadas eram-no em muitas línguas, mas não em português. Eles não sabiam o que fazer. Comecei, por isso, a organizar a saída dos operários..." lembra numa entrevista que deu em 2003 à Revista TIKVÁ da Comunidade Israelita de Lisboa.

O pedido de evacuação dessas pessoas para o Cairo veio do então Ministro dos Negócios Estrangeiro de Portugal, João de Deus Pinheiro. Ajudado pelos filhos, Nathan organizou e acompanhou pessoalmente a operação alugando, sempre a expensas próprias, numerosos autocarros que os levaram até ao Cairo de onde embarcaram para Lisboa num avião da Força Aérea Portuguesa vindo da Turquia. Pela sua dedicação a Portugal, foi condecorado pelo Estado Português com o Grau de Comendador da Ordem de Mérito em 1991.

Numa das suas viagens frequentes para fora de Israel, Nathan leu a biografia de Aristides de Sousa Mendes. "Um Homem Bom", de Rui Afonso, impressionou-o profundamente. Dirá mais tarde, a respeito, que nada tinha feito que "se parecesse com a sua acção mas a sua história comoveu-me e inspirou-me".

É curioso como o mais das vezes a grandeza não se reconhece.
Nathan faleceu a 14 de Maio deste estranho ano de 2020. Andássemos menos esmagados pelo corona vírus e o seu falecimento teria sido mais notado.

Ajudam a contar a sua história o irmão, Isaac, de 88 anos, emigrado para Israel em 1955 e que até muito recentemente trabalhou como vice-presidente de uma das maiores companhia de gás do país e, em Portugal, as duas irmãs, Esther e Lúcia. Uma, referência incontornável em assuntos judaicos e a outra a maior figura na tradução para português de literatura hebraica. As raízes da família Mucznik estão, portanto, profundamente enterradas em Portugal e em Israel e ambos os países beneficiaram da sua presença.

Temos vindo a assistir em Portugal, nos últimos meses, a um acicatado debate público sobre a lei da nacionalidade. "É preciso mudá-la, reformá-la", dizem uns; "É expressamente proibido tocar-lhe, alterá-la", dizem outros.
Este é um debate interno. Português. Fui, várias vezes, abordado pelos media locais para comentar esta discussão, algo que recusei sempre.

Permito-me agora, e precisamente à boleia do exemplo da vida de Nathan Mucznik, dar uma achega e uma sugestão:

Uma, a quem tem de lidar mais directamente com este tópico, de que a longa história dos judeus tornou-os, e justamente, mais susceptíveis a verem-se "destacados", "apontados".
Outra, a manterem na memória, sempre, a imagem de Nathan Mucznik e de como Portugal e Israel ganharam ao partilharem este cidadão incomum.
Que a sua memória seja eternamente abençoada nas suas duas pátrias.
Nathan deixou uma pintura feita de cores verdadeiras. Dele ficou-nos, sobretudo, a memória de um coração cheio de graça.

Embaixador de Israel em Portugal

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