Morreu o meu grande amigo José Cutileiro

José Cutileiro foi para mim um segundo pai, um mestre, um companheiro de rádio durante quinze anos (e um livro escrito em conjunto); foi, acima de tudo, um grande amigo.

Não é imaginável a dimensão do que com ele aprendi nestes quinze anos, se comparado com o que aprendi antes ou possa, tenho grandes dúvidas, vir ainda a aprender. E foi sempre uma aprendizagem divertida, ao ouvi-lo contar uma história, recitar de cor um poema (também escreveu poesia), lembrar-se das palavras de alguém num livro, por vezes com mais idade do que ele, uma canção que desatava a cantarolar.

Sempre com um humor mordaz, corrosivo, mas muito português também, apesar da vivência pelo mundo, que o levou da África do Sul à Suécia, de Moçambique a Bruxelas, da Bósnia aos Estados Unidos, do Afeganistão à formação académica em Oxford com uma obra de antropologia (resultado da tese de doutoramento) que é referência ainda hoje sobre a terra que o viu nascer - chama-se "Ricos e Pobres no Alentejo". Dirigiu uma organização internacional, a UEO, União da Europa Ocidental, teve um pseudónimo famoso na imprensa nacional, o A.B. Kotter, como se de um inglês se tratasse a olhar para a sociedade portuguesa a partir de Colares, Sintra.

Estamos a falar de alguém com uma memória prodigiosa, que trabalhou e/ou conviveu com Alexandre O"Neil, com Alçada Baptista, com Sttau Monteiro, com Francisco Sousa Tavares, com Sophia de Mello Breyner, com Pulido Valente, com José Cardoso Pires, mas também com alguns dos principais políticos nacionais nas primeiras décadas da democracia portuguesa.

Para mim, foram quinze anos com ele - os últimos dois na TSF, com O Estado do Sítio - antes disso na Antena 1 com o Visão Global, depois do Mais Europa.

Era um europeísta cético, mas um democrata fervoroso.

Não consigo sequer não o imaginar, todas as semanas, após conversarmos sobre as coisas do mundo, e depois das perguntas sobre a família, perguntar: "Então e a pátria, como vai?". A pátria, Senhor Embaixador, agora... ficou pior. Muito pior.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG