Mário Soares e o seu otimismo latino-americano

Mário Soares morreu a lutar pela vida. Após 25 dias internado nos cuidados intensivos, sucumbiu à inexorável morte que o leva à sua nova morada onde sempre será recordado como "o maior herói da democracia portuguesa".

Soares morreu como um digno membro de uma sofredora geração de portugueses que arriscou tudo pela liberdade, se esforçou ao máximo por superar a pobreza, trabalhou para a consolidação da democracia, recuperou a posição geopolítica mundial para a sua pátria e enfrentou as crises económicas e financeiras defendendo a validade da justiça social. É um exemplo para os democratas do mundo.

Numa noite de maio de 2013, tive a oportunidade - com outros embaixadores latino-americanos - de partilhar com Mário Soares uma longa conversa onde com essa simpatia cúmplice e muito latina, contou uma história especial que une Portugal à luta pela democracia na América Latina.

Durante o seu exílio na Alemanha, foi convidado pela Internacional Socialista a fazer uma viagem pela América Latina. Eram tempos difíceis com ditaduras em toda essa região e era necessário aumentar a solidariedade e vínculos com os líderes e partidos irmãos porque as anteriores delegações tinham sido integradas por nórdicos e alemães que tinham dificuldade em compreender os latinos. E foi assim que, por causa da sua condição de português, pôde viajar e conhecer quase todos os países latino-americanos como aqueles primeiros navegadores e exploradores e pôde fazer amizade com vários líderes que posteriormente chegaram à presidência dessas nações. A Internacional Socialista teve na sua pessoa um emissário privilegiado que tinha a empatia suficiente para gerar confiança e criar alianças e ligações políticos que ajudaram a proteger os seus membros numa altura de perseguições e a colaborar nas posteriores certificações eleitorais. Dessa forma, graças ao seu trabalho e de outras pessoas, a Internacional Socialista foi uma das principais protagonistas do processo de democratização na América Latina, pois tinha organizado uma vasta rede no continente que se articulou com os seus pares europeus para desenvolver importantes acordos que permitiram a consolidação da democracia na década de 90 do século XX.

Contudo, não chegou a visitar um país: o Paraguai.

Na sua altura, sabia-se muito pouco desse país, governado por um ditador feroz cujos capangas torturavam e matavam com crueldade todos os opositores, e a viagem devia ser realizada com grande cuidado porque socialismo era sinónimo de terrorismo e havia perigo de morte.

Como todo o "portuga", Mário Soares não desistiu da intenção e uma vez no Brasil, apresentou-se no consulado do Paraguai para pedir o visto. O funcionário muito corretamente recebeu os seus documentos e perguntou qual era a sua profissão. Soares respondeu "comerciante" para evitar suspeitas. O funcionário olhou-o atentamente e perguntou-lhe se era político ou tinha algum familiar na política e com cara de inocente ele respondeu que não. Em poucos dias o visto foi negado e nunca mais teve oportunidade de visitar esse país.

Ao terminar o seu relato, deu uma grande gargalhada por essa rasteira falhada e porque, apesar da frustração, o povo paraguaio lhe devolveu a ilusão quando elegeu em 2008 o bispo dos pobres como Presidente do Paraguai em nome da mudança necessária.
Os otimistas nunca morrem, têm sempre outra oportunidade.

Ex-embaixador do Paraguai em Portugal
Professor e Investigador do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa

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