Malnutrição, urge um compromisso político para um velho problema

Desculpem se me repito há 30 anos, mas nunca seremos médicos e profissionais de saúde de excelência, enquanto negligenciarmos diariamente a terapêutica nutricional dos nossos doentes.

Negligenciamos quando permitimos que os doentes entrem malnutridos e agravem o seu estado nutricional nos hospitais. Negligenciamos quando não acautelamos, após a alta hospitalar, que os nossos doentes no ambulatório/domicíliotenham acesso à terapêutica com nutrição clínica (entérica e parentérica), sempre que o necessitem.

Sem uma intervenção concertada do Ministério da Saúde, os mais de 115 mil doentes no ambulatório/domicílio, que estão em risco nutricional ou malnutridos e que precisam de cuidados nutricionais com recurso a nutrição clínica, vão manter-se sem qualquer apoio do Estado para realizar a sua terapêutica nutricional.

Se antes desta pandemia, a realidade destes doentes já era preocupante, acreditamos que agora é ainda mais, pelo agravamento do seu estado nutricional e pelo aumento do número de doentes malnutridos fora do contexto hospitalar. Muitos dos doentes COVID-19 terão pela frente, longos meses de recuperação funcional, sendo a manutenção de um adequado estado nutricional, crucial para o sucesso da sua reabilitação.

A malnutrição continua a ser preocupante em Portugal, com valores estimados, de prevalência, que representam o dobro da média europeia. Um estudo realizado em serviços de Medicina Interna, de 24 hospitais, revela que 73% dos doentes apresentam malnutrição moderada a severa, mas a prevalência real só será obtida quando o Ministério da Saúde começar a publicar dados sistematizados de prevalência nacional, prática corrente em diversos países europeus.

Ao fim de vários anos, a tentar sensibilizar as diferentes entidades de saúde, não deixa de ser penoso, continuar a ser necessário explicar que a malnutrição (como sinónimo de desnutrição) se define por uma ingestão alimentar/nutricional insuficiente, que se manifesta pela perda de peso não programada (redução da massa muscular), com uma origem multifatorial e com consequências graves para o doente eencargos económicos desnecessários para o SNS.

A APNEP vai continuar a promover a sensibilização destas entidades e a promover anualmente cursos pós-graduados, com certificação europeia, para profissionais de saúde. Vamos continuar a trabalhar diretamente com as entidades internacionais, dos 18 países que integram a campanha ONCA, procurando implementar em Portugal, medidas já implementadas nos restantes países há mais de duas décadas, e outras que carecem de implementação na maioria: como a integração estruturada, da nutrição, na formação universitária de todos os profissionais de saúde. Estamos, desde já, a cooperar com as diferentes Ordens profissionais da área dasaúde, no sentido de tornar esta recomendação, numa realidade.

O esforço, dos últimos anos, que permitiu reunir membros do Ministério da Saúde, deputados e responsáveis das Ordens profissionais de saúde, na implementação de boas práticas na área da nutrição clínica, foi reconhecido, quando fomos distinguidos com o prémio internacional MNI Grant 2019, em setembro.

Contudo, falta-nos ainda, assegurar que o acesso à nutrição clínica em ambulatório seja equitativo, mesmo quando as nossas entidades políticas reconhecem que esta se encontra devidamente regulada na maioria dos países Europeus, onde o acesso está garantido a 100%.

Aguardamos a publicação da Norma Clínica DGS "Implementação da Nutrição Entérica e Parentérica no Ambulatório e Domicílio em Idade Adulta", já aprovada, e a qual será um passo importante na garantia de que todos os indivíduos tenham acesso a cuidados nutricionais adequados, equitativos e de alta qualidade.

Os nossos doentes merecem beneficiar do melhor tratamento disponível, que ao mesmo tempo permita manter a sustentabilidade financeira do SNS. Reforço que, o tratamento efetivo da malnutrição, resultaria numa redução significativa dos encargos para o SNS, estimando-se uma poupança anual líquida superior a 166 milhões de euros. Por cada 1€ investido nesta terapêutica nutricional o SNS poupará 1,86€.

Temos de nos preocupar em recuperar os nossos doentes para uma vida ativa com qualidade ou pelo menos com a dignidade a que todo o ser humano deve ter direito. Não podemos focar apenas a nossa atuação em terapêuticas de ponta, sem nos preocuparmos em dar-lhes o básico: uma alimentação adequada e suficiente. Mas sozinhos, temos de admitir que não conseguimos, urge que o compromisso do Ministério da Saúde, para que o acesso equitativo a uma terapêutica nutricional adequada, passe de uma intenção, a uma verdade consumada.

Médico intensivista, presidente da APNEP (Associação Portuguesa de Nutrição Entérica e Parentérica) e porta-voz da campanha ONCA (Optimal Nutritional Carefor All) em Portugal.

https://apnep.pt/

https://european-nutrition.org/countries/portugal/

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