Lo que sucede conviene

Não sou analista. Até porque as únicas análises que faço são as de sangue e nem sempre têm o melhor resultado ou, como todas as análises, são passíveis de várias interpretações. Assim, e porque me encomendaram o sermão, aqui vai aquilo-que-não-é-uma-análise.

Apresentou-me Cuba um cubano. Tinha eu 6 anos. Cerveja, para ele, claro, sol, mar, filmes 8mm a preto e branco que fazia questão de mostrar aos meus pais e amigos revivendo entre lágrimas "Cuba que linda es Cuba..." e as imagens meio desfocadas de um malecón habanero dos anos 50. Veio recambiado na comitiva de Fulgencio Baptista e aterrou em Lisboa assentando arraiais na Costa de Caparica, Varadero cá da terra. As razões que o fizeram fugir, e digo fugir porque, como ele gostava de dizer, "si me cojen en Cuba me matan dos veces", tinha um passado suficientemente negro para que as suas conhecidas atrocidades lhe proporcionassem um futuro complicado. O capitão Ribero ainda hoje é pavorosamente lembrado pelos mais velhos.

No entanto... era um cubano. E se há coisa que os cubanos têm é uma atitude perante a vida que se resume a um ditado: Lo que sucede conviene. Assim contornam, ou melhor, adaptam-se às adversidades com uma permanente expressão conformada com o que não há, mas crítica do que não há, e conformada com o que há e crítica do que há. A minha dupla nacionalidade, embora tenha conquistado a cidadania cubana por quase 40 anos de contaminação saudável que não oficial, confere--me o direito, acho eu, de me tratar por nós. Ambos, portugueses e cubanos, pequenos em dimensão mas grandes na História e presentes na suprema luta pela independência.

Nunca quisemos muito mais do que sermos donos do nosso país, ou como gostamos de dizer, da nossa Pátria. Desde a independência da coroa espanhola, a qual tem um trono real em exposição de museu no qual nenhum rei se sentou, vivemos meio aos trambolhões, cobiçados, manobrados, humilhados, explorados, enfim, a ver o que nos queriam fazer ser. Até que um dia batemos o pé e voltamos a dizer patria o muerte. E a patria falou mais alto. Empurraram-nos para um lado e assim, apoiados nesse lado, construímos, ou melhor, reconstruímos e reconstruímo-nos. Mal ou bem a decisão foi nossa. Dividiram-se famílias, crisparam-se posições, lamentaram-se decisões, mas fizemos a diferença num mundo que até então pensava que a educação, a saúde, a solidariedade, a cultura, a igualdade e outras que tais prorrogativas de uma sociedade mais justa eram propriedade de gentes aparentemente maiores. Trilhamos um caminho difícil. Seria bom que sempre certo. Mas sempre nosso.

Nem sempre no braço de ferro cai o mais pequeno. A fórmula que engrandeceu os cubanos, e a nós também, ao longo da história chama-se dignidade. Essa mesma dignidade levou Obama a aterrar o Air Force One no aeroporto José Martí. José Martí não é só nome de aeroporto. E Obama sabe-o bem. E quem não gostou do seu gesto também o sabe. Quem pensou que a questão cubana se resolvia num braço-de-ferro está a testemunhar esse tremendo erro histórico. Porque não esperavam que nesse tug of war fosse a própria da corda a partir.

Vivemos tantas coisas e tão díspares que nos sentamos diariamente à volta da mesa a contar e a recontar o que se viveu. Estórias rocambolescas que só o rum e a música recordam e revelam.

Quando olhamos para a estátua de Martí na Praça de Revolução, onde tantas vezes aconteceu história, e assistimos ao presidente Obama, o presidente dos EUA, a depositar uma coroa de flores a seus pés, recordamos as palavras do poeta: "Viví en el monstruo y le conozco las entrañas, y mi honda es la de David." E sorrimos.

Sim, há um David e um Golias, mas agora o tempo não é de fundas mas sim de bom senso. O bloqueio não interessa a ninguém, senão a uma pequena minoria que ainda acredita na espada de Golias. Essa já passou e não volta mais. Dois países soberanos com muito mais o que os une, os povos, do que os separa, a política e claros interesses, têm por destino e obrigação olhar-se de frente com o respeito que se merecem dois velhos de dois mares.

Dez presidentes, um por cada dedo de cada mão. Já chega. É hora de as apertarmos e aplaudir.

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