Lendo Dostoiévski

Em 9 de Maio de 2020, no Vosso estimado jornal, foi publicado um texto de Leonídio Paulo Ferreira intitulado "Quando foi a última vez que leu Dostoiévski?"

O artigo apresenta bem as diferentes formas de influência da cultura e dos costumes europeus em todo o mundo, mesmo nas zonas da Ásia onde Dostoiévski viveu e trabalhou. A publicação do texto coincidiu com a minha releitura do livro deste que considero um dos mais brilhantes autores, intitulado Diário de um Escritor. Hoje talvez seja especialmente útil, e sobretudo, instrutivo, recordar o que Dostoiévski escreveu sobre a Europa em 1873, principalmente porque integrar a herança e cultura europeias não é um processo unidireccional. Pelo contrário, a Europa, ou utilizando a nomenclatura de hoje - a UE, também deve, por sua vez, fazer um certo esforço, não imenso, para abraçar todos aqueles que fizeram e fazem parte do património e cultura europeus e não considerar exclusivamente os novos requisitos, critérios e medidas que emanam da UE... Dostoiévski escreve apenas sobre a atitude da Europa em relação aos russos, mas o que ele afirma pode, sem dúvida, estender-se a muitas outras nações.

Antes de mais, Dostoiévski questiona se a Europa pode entender os "nossos artistas"? Diz ele que "um vasto número de pinturas é enviado para a Feira Mundial de Viena", mas sob que ponto de vista serão estas avaliadas? Traduzir p.ex. Ostrovsky e a sua comédia Somos o nosso próprio povo para a melhor língua alemã ou francesa e dirigi-la num cenário europeu - "Devo dizer que não sei em que irá resultar". "Sempre defendi que Gogol não pode ser expresso em francês". Gogol foi traduzido conjuntamente por Turgenev e pelo francês Viardo, que "provavelmente conhece perfeitamente o francês", mas o resultado desta tradução foi que "Gogol literalmente desapareceu".

Todas estas advertências, escreve o grande pensador e escritor, sobre os erros dos europeus "na sua óbvia tendência de nos tomar pelos maus, talvez explique a persistência, geral, de um incómodo sentimento de ódio que os europeus nutrem por nós"explicado pela "antiga e eterna objecção que nos dirigem de que supostamente não somos totalmente europeus... e nós, é claro, enraivecidos, procuramos provar que somos europeus..." (...)"Os interesses materiais prevalecem às ideias sublimes, e neles as crianças são desenraizadas e criadas afastadas das verdades naturais, em desrespeito ou indiferença à pátria, aprendendo a sentir um menosprezo ridículo pelo seu povo" (...) "Aqui está a primícia do mal: nessa cedência, nessa herança de ideias, nessa opressão nacional secular de qualquer pensamento independente, na noção de que a condição de europeu só pode ser alcançada com o requisito obrigatório de desrespeito por si próprio".

Não é similar hoje no seio da UE? Recentemente, alguns do norte qualificaram aqueles do sul da UE como países apenas para "beber vinho e perseguir mulheres"! Recusam-se a usar os fundos europeus para os fins a que se destinam - ajudar aqueles que são atingidos por um grande infortúnio! O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa não perguntou então se a Europa é solidária ou não? E o Primeiro-Ministro António Costa não foi forçado a alertar essas pessoas sobre o seu comportamento inaceitável, dirigindo-lhes algumas palavras mais duras?

A UE não pode e não deve ser apenas uma comunidade que olha para a sua essência através "do carvão e do aço". Nenhuma comunidade perdura por muito tempo se não tiver desenvolvido uma arte comum, uma literatura, uma ciência e uma justiça (equidade) a partir do seu núcleo e isso significa sustentar os princípios da compreensão, da tolerância e da solidariedade para com os outros.

Embaixador da República da Sérvia em Portugal

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