Josep Pla em Portugal

Um dos primeiros autores espanhóis a quem recorri para ter uma ideia de Portugal foi Josep Pla, cujo Direcció Lisboa é uma recompilação de artigos dedicados a este país.

Josep Pla necessita de uma apresentação ao leitor português. O escritor de Palafrugell (1897-1981), além de manusear a língua catalã como ninguém, tinha humor, esse humor trocista e rural do seu Ampurdán. A sua prosa é límpida, com adjetivos singulares, novos, plásticos, inimitáveis.

Manteve um equilíbrio político saudável, que os catalanistas mais dogmáticos sempre lhe censuraram, porque em vez de o ler preferiram fazer-lhe a autópsia. Dada a sua imagem política controversa e ainda que muito premiado, nunca receberia o Premi d'Honor de les Lletres Catalanes (Prémio de Honra das Letras Catalãs), o maior prémio literário da Catalunha. Francesc Cambó, o prócere catalão da Lliga Regionalista, milionário e político liberal conservador morto no exílio, será um dos seus apoios mais ilustres. A sua biografia escrita por Pla é um livro indispensável para entender o nacionalismo catalão e as suas vicissitudes.

A sua escrita expõe-se deslumbrante nos seus diários, como o Quadern Gris, nos seus retratos de personagens, ElshHomenots, nas suas crónicas de viagens que fez por todo o planeta. Nunca se propôs, dizia, a mais do que dar uma imagem do mundo que viveu, constatar um facto, "que formam umas vastas memórias, uma sucessão de reflexos da minha insignificante, mas autêntica existência". Curiosamente, grande parte da sua obra não foi ainda traduzida para castelhano e Direcció Lisboa existe apenas em catalão, no volume 28 das suas obras completas das Edicions Destino.

Era demasiado cético, independente e livre para ser absorvido pelos vencedores da guerra civil (tinha saído em fuga da Catalunha republicana num barco francês porque não se sentia seguro no meio da "desordem anarquista", viveria em França e em Roma e entrou por Irún em outubro de 1938 na zona nacional ou franquista). Mas não era da confiança dos novos amos e nunca chegaria a ser diretor desse magnífico diário que é e sempre foi La Vanguardia, porta-estandarte da imprensa catalã e espanhola.

Foi também um cronista político de envergadura e as suas páginas sobre a proclamação da República em Madrid são memoráveis. Com o seu humor, afirma que Madrid "cheira a café com leite" e "os madrilenos contemplam como ardem os conventos enquanto comem churros". As suas crónicas parlamentares da época são demolidoras, com uma objetividade tremenda, que deixa bastante mal todos os charlatães que proliferavam nas Cortes.

Os seus primeiros artigos sobre Portugal datam de 1921 e depois escreveria regularmente pois visita o país muitas vezes. Percorre-o de norte a sul, detém-se no Ribatejo (Santarém, diz, mordaz, recebe menos visitantes desde que tem caminho-de-ferro). Extasia-se perante as cores de Corot do Estuário do Tejo, com todos os tons de brancos - "passei muitas horas contemplando o imenso estuário" - e já menciona os riscos da salinização.

Destaca a sua admiração pela arquitectura e as artes, detém-se com fruição frente aos Painéis de São Vicente e o pintor Nuno Gonçalves. Setúbal merece-lhe umas linhas muito amáveis: "cidade tranquila, limpa e de ruas largas, cheia de cor, de uma arquitectura barroca ligeira e ponderada. As cores rosa e os verdes aéreos pousados sobre uma arquitectura tão razoável são uma delícia". Em Abrantes "nada aconteceu, que eu saiba, desde Wellington", diz em 1953. "Cascais é uma povoaçãozinha branca, pescadora, de um barroco de boa doçaria popular que no verão é invadida por uma multidão turística insuportável". As suas opiniões, subjetivas, sinceras, são frequentemente muito certeiras.

Talvez o melhor escritor paisagista (a pátria é uma paisagem), a botânica, as culturas, são alguns dos seus temas favoritos. Em Portugal destaca quatro árvores, o sobreiro, o pinheiro, o eucalipto e a oliveira, "de todos os países do sul da Europa, Portugal é o mais rico em botânica", "de uma riqueza arbórea considerável". Os sobreiros chamam-lhe muito a atenção porque são árvores também da Catalunha e do seu Ampurdán (a serra do Caldeirão fez-me sentir a ilusão de não ter saído de casa").

As paisagens agrícolas portuguesas encantam-no ainda que opine que a ditadura de Salazar fez muito pouco pelo campo, e em relação "à alimentação mostrou uma grande parcimónia". No entanto, crê que em matéria de vinhedos e cortiça Portugal está muito à frente de Espanha. Por outro lado, as paisagens mais agrestes deixam-no mais indiferente e a Serra da Estrela parece-lhe "excessiva e puramente geológica".

Interessantes para os nostálgicos serão os seus artigos sobre Salazar, Como pensa Oliveira Salazar (45 páginas), "um dos homens importantes mais anti-exibicionista que esta época produziu", escreve em julho de 1953. "Ao slogan de Nietzsche, "vive perigosamente"..., Salazar contrapôs "vive normalmente". Pla usa as memórias e entrevistas de mademoiselle Garnier para o seu retrato do ditador (Portugal é uma república ditatorial"), ainda que reconheça os seus méritos económicos e financeiros. Bom pagès, agricultor, um "falso pobre", dá sempre muita importância ao dinheiro. Pla, como me recorda o meu amigo Joan Mundet, morre rico e a sua principal preocupação era a estabilidade financeira.

Relativamente às colónias diz em 1963, "o sistema colonial português tem sido, durante muitos anos, uma espécie de anarquia escondida e carente, absolutamente aceite, na qual a exploração, se a houve, foi insubstancial. Agora começa outra etapa".

Pla, alarga-se sobre o fado e Amália Rodrigues (irá à Adega Machado do Bairro Alto), o barroco, os vinhos, que aprecia muito ainda que não goste dos verdes, demasiado ácidos para ele, e a cozinha e doçaria portuguesas, esta última que considera bastante afrancesada. O seu artigo A cabeça, transportadora de mercadorias é dedicado às varinas, essas peixeiras descalças que o fascinam e atraem como mulheres "que têm fama de ser muito desenvoltas e de falar uma linguagem muito direta e clara".

Ninguém pense em encontrar em Josep Pla os lugares comuns dos guias a uso nem os comentários apenas elogiosos, pois não se deixa deslumbrar pelas primeiras impressões e consegue ser demolidor. "Portugal é um país em que as coisas supérfluas são muito boas e as indispensáveis podem não o ser tanto." Foge aos lugares comuns e afirma também, sem reparo algum que "os pores-do-sol no Atlântico, mesmo em dias de bonança, tendem a terminar com uma lividez inóspita, opressiva e triste". "Horripilante", conclui. Obviamente, o seu mar preferido foi sempre o Mediterrâneo, ao qual dedicou numerosas páginas daquilo a que chamava "literatura narrativa", em particular aos marinheiros, contrabandistas, pescadores da costa ampurdanesa e a muitas povoações da costa catalã quando ainda eram genuínas.

Para o leitor português seria muito importante que fosse mais traduzido por cá, para mim e para muitos, o melhor escritor catalão do século XX e um dos melhores de Espanha; não apenas pelas suas saborosas páginas sobre Portugal, mas também porque creio que assim entenderia melhor a Catalunha e os catalães.

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