Um primeiro-ministro das Arábias

Há várias receitas para lidar com o sobre-endividamento do Estado, mas só uma faz milagres. Portugal continua a ser o sexto país mais endividado do planeta. É também aquele onde as desigualdades sociais são mais acentuadas entre as economias ocidentais. O mero pagamento dos juros da dívida pública consome anualmente mais do que todo o atual sistema público de ensino - sistema que por isso anda à beira do colapso por falta de meios.

Há boas notícias que só o são para otimistas. Por exemplo, quando um avaliador internacional diz que a dívida pública portuguesa já vale mais do que "lixo". Ou quando Mário Centeno, dias antes de ir para o Eurogrupo, antecipa o pagamento de quatro mil milhões de euros. Mudar o nome na tabuleta ou retirar de um pântano uma pazada de lama não resolve o problema do pântano, por muitos holofotes que se aponte à tabuleta e à pá.

A receita japonesa - o Japão é o país mais endividado do mundo - é exportar excelentes produtos numa quantidade enorme. Infelizmente não funciona num país desindustrializado como Portugal. A receita alemã, a austeridade imposta por Berlim aos países do Sul durante os últimos anos, falhou, agravou a desigualdade, levou os anéis e muitos dedos.

Já a receita do príncipe Salman, herdeiro do trono na Arábia Saudita, demonstrou recentemente a sua eficácia. Salman, farto de ver alguns dos seus conterrâneos e colegas príncipes enriquecerem, na velocidade inversa a que os cofres públicos se esvaziavam, resolveu os dois problemas de uma assentada.

Seria fácil para o primeiro-ministro português seguir a receita árabe: reduzir a dívida pública para valores aceitáveis e impor alguma ordem num sistema de enriquecimento desenfreado à custa de bens públicos. Basta olhar para um cenário que já teve, nas redes sociais, o aplauso de largos milhares de portugueses, aos quais, no meio do seu entusiasmo, só escapou o intuito satírico do humilde autor, o mesmo que assina esta coluna.

Aqui, em breve, o resume: o primeiro-ministro convoca os mil mais poderosos e ricos para um evento no Hotel Ritz em Lisboa. Junto ao hotel, no Parque Eduardo VII, estão montadas tendas para a grande festa. O primeiro-ministro entra no salão do Ritz, bate com o indicador ao de leve no microfone para testar o som. À sua esquerda e à sua direita estão os representantes dos partidos que apoiam o seu governo.

"Meus senhores, caros convidados, nas últimas décadas enriqueceram à custa do país. Aumentar impostos não serve de nada, contra os offshores, a deslocalização de sedes fiscais das empresas e as fugas de capital nada posso fazer. Por isso, peço que liguem ainda hoje para os vossos bancos e gestores de fundos e que transfiram 75% das vossas fortunas para a conta da Direção-Geral de Contribuições e Impostos", diz o primeiro-ministro. Enquanto isso, no exterior, ouve-se o som de botas a correr no asfalto. Polícias, que aguardavam ordens nas tendas no Parque Eduardo VII, começam a cercar o hotel de luxo para ninguém sair. Várias equipas especializadas em interrogatórios musculados entram no hotel.

Os convidados olham incrédulos uns para os outros. O primeiro-ministro volta a falar. Explica que nas zonas de serviço do hotel já estão alguns magistrados a emitir ordens de detenção por suspeitas de fraude fiscal, branqueamento de capitais, corrupção, gestão danosa e mais meia dúzia de crimes graves. Ao longo dos dias que se seguem os convidados vão saindo do Ritz, com barba por fazer e aspeto de quem já não dorme há muito tempo. No salão, pendurados pelos pés, já só dois ex-ministros insistem que não têm nada em seu nome.

O primeiro-ministro e o ministro das Finanças estão sentados no bar do Ritz. "A questão da dívida pública está resolvida", diz o primeiro-ministro e ergue a sua mini, "um brinde ao príncipe Salman das Arábias pela inspiração!". "E à minha antecessora, pela ideia de suspender por uns tempos a democracia. Era isso ou renegociar a dívida", acrescenta o ministro das Finanças.

Correspondente Der Freitag e En-24

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