Um aniversário atrás das grades

Imagine fazer uma festa e não aparecer ninguém. Esse risco não se põe hoje, com milhares de pessoas no mundo inteiro a juntarem-se para celebrar o aniversário da defensora de direitos humanos Idil Eser, diretora executiva da Amnistia Internacional na Turquia. Apenas uma pessoa não vai estar presente em nenhuma das festas: a Idil.

Em vez de participar num dos mais de 200 eventos organizados para ela em 27 países, Idil vai passar o aniversário na ala de mais alta segurança da prisão com a mais elevada segurança em toda a Turquia, Siviliri.

Custa-me imaginá-la na pequena cela, sozinha. Passará o dia a ler, estou certo, e por momentos a olhar para o ponto mais longe possível, com um ligeiro sorriso por nos saber orgulhosos de todos os sacrifícios pelos quais está a passar, pela liberdade, por aquilo em que acredita.

Conheci a Idil em julho do ano passado. Estávamos em Barcelona numa reunião dos diretores nacionais da Amnistia Internacional. Ambos tínhamos começado dois meses antes. Em setembro seguinte voltámos a encontrar-nos, em Londres, numa semana intensa de formação para os novos diretores executivos. Ambos vínhamos de estudos de cultura e a simpatia foi mútua. Dos novos diretores, ela era a mais velha e mais experiente. Eu, o mais novo do grupo. A afinidade cresceu entre nós.

Falámos muito da Istambul que foi Constantinopla, que foi Bizâncio, que foi ao longo dos séculos um lugar de encontro e templo de sabedoria, como o evoca a sua catedral-mesquita com a maior cúpula do mundo. Idil perguntava-me muito por Portugal, que desejava imenso conhecer. Fomos trocando ideias, sobre lugares e experiências de vida. Com os desafios de liderar a Amnistia Internacional num tempo em que os direitos humanos são tão atacados, tinha-a a ela e ao Heracles - da Grécia - como colegas e, além disso, amigos em todas as partilhas: das vitórias, mas também das dificuldades do dia-a-dia de trabalho.

O ambiente na Turquia não era o melhor há bastante tempo. Desde julho que tudo mudara. E ela vivia essa tensão do trabalho, de proteger a sua equipa, de criar as melhores condições para que a secção turca crescesse e fosse eficaz. Vivia com essa obsessão, como se o seu staff fosse os filhos que não teve e a família que perdera.

Na última vez que falei de viva voz com a Idil, estava ela numa formação em liderança em Dacar. Encorajei-a a desligar-se dos assuntos da Turquia e a aproveitar a aprendizagem. Os problemas na Turquia esperariam por ela! Foi num desses dias que Taner Kiliç, presidente da Amnistia Internacional - Turquia, foi detido. Idil regressou imediatamente e combinámos reunir-nos por videoconferência. Notei-lhe cansaço, mas também a energia de sempre para nunca parar. No dia em que foi detida, fizemos em Portugal várias ações por Taner Kiliç e eu ia fotografando e enviando-lhe as fotos. Só à noite percebi porque não me respondera, o que nunca acontecia fosse em conversas de trabalho ou sobre Istambul, sobre Lisboa ou Aveiro, todas à beira da água plantadas.

A Idil tinha sido detida com outros nove defensores de direitos humanos sob acusações absurdas de terrorismo. Fez nesta quinta--feira cem dias. E no domingo passado, num desenvolvimento alarmante, um procurador turco requereu sentenças de penas até 15 anos de prisão contra o grupo - conhecido como os 10 de Istambul. Nesse requerimento é pedida a mesma pena para Taner Kiliç.

Ao longo destes mais de dois meses de detenção não foi permitido a Idil ter visitas pessoais e, apesar da avalancha de mensagens que têm sido enviadas para a Amnistia Internacional por pessoas que lhe desejam bem por todo o mundo, também não lhe é autorizado receber correio.

O ambiente austero da prisão de Siviliri é extremamente diferente da forma como Idil costuma passar o aniversário. Habitualmente, ela estaria num dos seus restaurantes favoritos, rodeada de amigos, a partilhar boa comida e vinho, e a rir-se, antes de regressar ao seu acolhedor apartamento e aos seus bem-amados três gatos.

O isolamento é-lhe extremamente difícil. Partilha a cela apenas com uma outra mulher e está impedida de falar com os demais defensores de direitos humanos aprisionados. Porém, não lhe quebraram o espírito. "Não cometi nenhum crime além de defender os direitos humanos", escreveu numa carta há um mês. "O tempo passado na prisão tornou-me ainda mais determinada em defender os meus valores. Não os comprometerei", garantiu.

A dissensão tornou-se muito perigosa na Turquia e até os defensores de direitos humanos são alvo - a mensagem é a de que a dissidência não será tolerada. Mas a coragem de Idil e dos seus companheiros, e o apoio que conquistaram no mundo inteiro, manda uma mensagem ainda mais clara e mais forte: a de que as vozes críticas não serão silenciadas.

A Idil nunca desejou ser o centro das atenções. O que a move é o desejo de fazer a diferença positiva na vida das pessoas e aumentar a consciencialização sobre a importância dos direitos humanos na Turquia.

Hoje, pessoas pelo mundo inteiro estão a pensar nela e a desejar-lhe um feliz aniversário. Um desejo que é o de que as autoridades turcas a libertem, e aos seus companheiros, e que ponham fim à brutal repressão que está a devastar a Turquia.

Eu estarei também assim, e mais: a sentir-lhe a falta. A sentir falta de a ouvir rir-se, a sentir falta de a ouvir dizer que "precisa do meu cérebro" para alguns conselhos, enquanto me sinto pequeno para isso, perante os desafios dela, e a esperar que um dia, tão breve quanto possível, voltemos a brindar à liberdade e a conversar sem pressas do tanto que nos une, sejam direitos humanos seja a beleza de Istambul.

Diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal