Tempos difíceis

O padrão histórico da diplomacia portuguesa reclama um equilíbrio entre duas alianças - uma aliança europeia (ou "continental") e uma aliança extraeuropeia (ou "marítima"). Essa regra pode traduzir-se numa dupla aliança com a Alemanha e com os Estados Unidos, ou na dupla filiação na NATO e na União Europeia.

Esse equilíbrio ficou prejudicado no período da troika pelas condições da crise financeira que impuseram uma dependência excessiva em relação a Berlim (e à União Europeia), em detrimento das relações com os Estados Unidos (e a NATO), tanto mais quando Washington decidiu privilegiar a Rota e desvalorizar as Lages.

O fim oficial da crise e a mudança de governo tornaram possível recuperar um equilíbrio mínimo. Na sua primeira intervenção no Seminário Diplomático, o novo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, declarou que a sua prioridade era revalorizar as relações com os Estados Unidos e ele próprio tem-se empenhado nesse objetivo crucial. As últimas iniciativas, incluindo as reuniões da comunidade luso-americana, são resultado desses esforços e confirmam a linha política inicial.

O trabalho da diplomacia portuguesa em Washington exige uma diferenciação entre Lisboa e Madrid: a Península Ibérica é vista como um todo do outro lado do Atlântico. Portugal tem duas ou três vantagens sobre a Espanha nas relações com os Estados Unidos. Primeiro, uma vantagem histórica. Portugal não travou nenhuma guerra contra os Estados Unidos e, ao contrário da Espanha, manteve sempre uma política de aliança com Washington, incluindo na I Guerra Mundial e na II Guerra Mundial. Segundo, uma vantagem política. Portugal tem - e, finalmente reconhece que tem - uma comunidade portuguesa nos Estados Unidos, com uma crescente representação política estadual e federal: o trabalho de Vasco Rato e da FLAD fizeram a diferença no fortalecimento das relações com a comunidade luso-americana. Terceiro, uma vantagem estrutural. Portugal precisa mais dos Estados Unidos do que a Espanha: nos Açores, Portugal é o guardião da fronteira atlântica entre a Europa Ocidental e a América do Norte e a segurança do espaço marítimo português depende da relação com os Estados Unidos e com a NATO.

Os tempos difíceis regressaram à relação transatlântica. Portugal, como todos os aliados europeus, reconhece na NATO a garantia insubstituível da defesa europeia, mas a parceria transatlântica já não pode ser dada como adquirida, num contexto em que se multiplicam as tensões e as divergências na aliança ocidental. Na presente conjuntura, voltam a acumular-se os sinais de uma crise que pode opor os Estados Unidos e a Alemanha, como aconteceu no momento da invasão anglo-americana do Iraque, há 15 anos. Esse cenário é, tal como foi em 2003, um pesadelo para Portugal, porque confronta a diplomacia portuguesa com uma escolha impossível entre duas alianças, ambas indispensáveis para a autonomia estratégica nacional. Nesse contexto, a prioridade portuguesa deve ser, em Washington como em Berlim (e Bruxelas), evitar essa confrontação e, sobretudo, impedir que uma nova crise possa prejudicar a dimensão de defesa e segurança transatlântica, mais importante para os aliados europeus do que para os Estados Unidos.

A tentação da diplomacia portuguesa é ser mais europeia do que atlântica. O estado de crise impõe aos responsáveis portugueses que sejam tão europeístas como atlantistas - europeístas em Washington, atlantistas em Berlim - e em Bruxelas -, o que não é sempre fácil.

Investigador do Instituto português de relações internacionais

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