Quando falar português, em Portugal, não basta!

Faz parte do senso comum dizer que "os brasileiros emigram para Portugal por causa da língua". Mas, como já referi em outro artigo, as motivações para migrar, bem como para a escolha do país de destino, não se reduzem a um único fator. Quando muito pode dizer-se que o idioma é um dos fatores que podem motivar esta escolha, e que enquanto facilitador da comunicação pode ser um capital social importante na concretização desta mobilidade.

Contudo, ao investigar o caso dos estudantes brasileiros no ensino superior português tenho observado que, para além das dificuldades que encontram com a língua portuguesa falada em Portugal (diferenças de vocabulário, concordância, fonética, sotaques, regionalismos, gírias, etc.), a maioria não sabe que no ensino superior português o conhecimento da língua inglesa é fundamental (é cada vez mais comum o uso do inglês em aulas, bibliografias, participação em conferências e escrita de papers, já que a academia portuguesa quer marcar presença nas principais revistas científicas do mundo, e estas encontram-se, maioritariamente, em inglês).

Portanto, a partilha do mesmo idioma, um dos fatores que têm contribuído para a mobilidade destes estudantes para Portugal, não se tem mostrado muito eficiente quando a questão se prende com a integração dos mesmos no país. Apesar de ambos os países terem como língua oficial a portuguesa, o facto é que os brasileiros incorporaram à "língua de Camões" algumas diferenças (muitas vezes provenientes dos autóctones, de outros colonizadores, imigrantes, etc.), nem sempre vistas com bons olhos pelos portugueses.

Por isso, alguns estudantes brasileiros referem já ter ouvido, inclusive de professores, que o português que falam não é o correto. Custa-me acreditar que um estudante universitário brasileiro não saiba utilizar a língua portuguesa, da forma como a utilizamos no Brasil, corretamente. Mas que a utiliza de forma diferente, é certo! Assim, acho mais plausível admitir que não se trata de uma utilização errada, mas diferente. Obviamente se estes estudantes escolheram vir para Portugal devem fazer um esforço para se adaptarem à língua que aqui é falada. Mas visto que as universidades portuguesas também têm interesse em atrair estudantes estrangeiros, sobretudo dos países lusófonos (como já expliquei em outro artigo), será que elas também não deveriam fazer um esforço para aceitar estas diferenças? Parece-me que separar "erro" de "diferença" é o primeiro passo que deve ser dado em direção a uma maior integração.

Quanto ao uso do inglês, enquanto alguns estudantes brasileiros veem nisso uma "mais-valia", uma forma de melhorar este idioma, outros consideram "um absurdo", uma forma "arrogante" de as universidades portuguesas se posicionarem em concordância com os desígnios eurocêntricos de dominação da língua inglesa e de autores anglo-saxões. Ou seja, é paradoxal que o uso do inglês como forma de internacionalização do ensino superior português possa afastar a maior comunidade de estudantes estrangeiros do país: a brasileira.

A dificuldade que o brasileiro sempre teve com a língua inglesa baseia-se numa aprendizagem de fraca qualidade durante o ensino fundamental e médio (1.º ao 12.º ano), onde somente quem fosse capaz de custear um curso privado de inglês (ou seja, uma elite) teria chance de ver este défice colmatado. No entanto, com uma maior democratização no ensino superior brasileiro, que possibilitou que não só uma elite pudesse estudar no exterior, mas também aqueles que não tiveram como emendar o fraco aprendizado do inglês, Portugal configurou-se na oportunidade de "estudar fora", bastando falar português.

Mas não, falar português, em Portugal, não basta! Em Portugal ainda é preciso haver um esforço de entendimento entre os diferentes falantes de língua portuguesa; é preciso que as universidades invistam mais na publicação de artigos nesta língua e aproveitem toda a potencialidade e a diversidade provenientes dos países lusófonos. Só assim talvez se consiga restituir a importância de um idioma que, apesar de subalternizado, ainda é o quarto mais falado no mundo.

Jornalista, Doutoranda em Migrações pelo IGOT - Univ. Lisboa

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