Para que servem as eleições europeias?

Quando num debate com os cabeças de lista às europeias se discute apenas política interna está tudo dito sobre o nível do discurso público.

Pelo menos cinco das seis pessoas que na noite de um de maio entraram no estúdio da SIC Notícias têm lugar garantido no próximo Parlamento Europeu. Algures durante os próximos quatro anos, terão de tomar opções que vão mudar as vidas de todos os europeus sobre questões como o aquecimento global, as relações com a China, as migrações, a solidariedade europeia, o impacto da tecnologia, o futuro do euro, o envelhecimento do continente, etc. Em mais de noventa minutos não se ouviu uma única palavra sobre isto. Em troca discutiram-se sondagens, relações entre governo e oposição, amizades e rancores a ditadores, rankings anónimos sobre produções parlamentares e muitas tricas mais ou menos pessoais.

Ficou claro que jornalista e candidatos estão muito mais à vontade a discutir as minudências das questões políticas nacionais do que em falar sobre os grandes temas europeus. Ora, não é para isto que a Europa serve. Como às tantas clamou Marinho Pinto, a União "coloca doze milhões de euros todos os dias em Portugal", justificando que a importância de o continuar a fazer. Mas esta é uma abordagem que joga mal com o discurso dominante sobre a Europa, que causa manifesto desconforto aos partidos instalados. Como se viu, o problema é sistémico. Para os partidos do eixo central, o discurso que convém reconhece apenas que tudo o que correu bem em Portugal deveu-se à genialidade dos nossos governos, tudo o que correu mal foi por causa dos malandros da Europa. Para os partidos das franjas, que precisam de um inimigo e por isso diabolizam a União, o Euro e as suas conquistas sociais, a demagogia é muito mais importante que a substância. Assim não vamos lá.

No pós-debate, várias vozes se apressaram a explicar que as pessoas não percebem para que servem estas eleições. É verdade. E, em vez de esclarecer, este debate ajudou ainda mais a confundir. A Europa é historicamente uma questão difícil de comunicar. A estrutura de poder é complexa, o processo de decisão também e até há bem pouco tempo não se primava pela transparência. Por exigência dos cidadãos, as coisas estão a mudar. Mas quem ocupa o espaço público tem especiais responsabilidades em ajudar a entender o que está em causa - e a verdade inconveniente é que o nome do próximo presidente da Comissão Europeia será mais importante para o futuro de Portugal do que o nome do próximo primeiro-ministro. As grandes questões em que Bruxelas vai intervir vão implicar de forma mais profunda com o destino dos europeus do que a maioria dos governos nacionais, simplesmente porque hoje é assim que o mundo funciona. E, enquanto isto não ficar claro na cabeça de jornalistas e políticos, também não ficará na cabeça dos cidadãos.

De forma a que um debate sobre a Europa em Portugal não volte a sofrer deste problema, oferecemos algumas sugestões de temas que têm realmente a ver com a vida dos cidadãos - e que, se calhar, até motivam pessoas a votar. Aqui ficam:

- A tecnologia está a ter um impacto cada vez maior na vida quotidiana. Deve a Europa intervir para regular plataformas digitais? Deve interferir com a atividade de algoritmos? Deve acelerar a revolução tecnológica, com as inevitáveis consequências a nível do emprego? E o que fazer à privacidade? E a cibersegurança?

- A ciência é unânime em considerar as alterações climáticas como o maior desafio coletivo da humanidade e que é urgente mudar de caminho. Deve a UE continuar a subsidiar os combustíveis fósseis? Deve investir em energias renováveis, com as inevitáveis consequências sociais a curto prazo? Deve exigir alterações comportamentais aos seus cidadãos e aos produtos que consumimos, obrigando-nos a todos a repensar o conforto que temos?

- Em termos de política externa, é fundamental ponderar qual é o papel da Europa no equilíbrio de forças global. Devemos aprofundar relações comerciais com a China, empoderando uma nação cujos valores são opostos aos europeus? Devemos dar prioridade às relações com África, até para minorar o problema dos migrantes? Qual deve ser a voz da União em termos geopolíticos? E como se deve exercer esse poder?

- O futuro da União pós-Brexit está em cima da mesa. Deve aprofundar-se a UE, aumentando a proximidade entre os estados - por exemplo apostar num exército único? Ou deve caminhar-se para as geometrias variáveis que dão mais margem de manobra às nações mas impedem que todos beneficiem da coesão? E o futuro do Euro? E os impostos europeus? E o salário mínimo ou rendimento mínimo comum europeu?

Os temas poderiam ser muitos outros, é claro. Num debate, a gestão de tempo e dos temas é uma tarefa ingrata. Isso não desculpa escolhas completamente erradas, que correm atrás das polémicas que entram na lógica da futebolização da política. Devemos aumentar o nosso grau de exigência uns com os outros, para o nosso bem coletivo.