Os três irmãos

Os pais ofereceram-me dois presentes: o João Pedro e o Nuno Miguel. Preencheram-me os lugares vazios da alma com o suplemento de duas novas vidas. Os gatos têm sete, eu contento-me com três: a própria, a do irmão do meio (centrista por decreto de nascença) e a do mais novo (o benjamim ad eternum da casa). O caçula nem sequer estava contemplado no planeamento familiar, recebido como um abono fortuito de Deus. Nas palavras da Mãe, o melhor "acidente" - porquanto imprevisto - da sua memória.

Somos quatros homens e uma mulher. Os progenitores fintaram a lei da paridade, qual igualdade de género transgredida pela repetição sucessiva do mesmo par de cromossomas. Só pela paciência em compreender e gerir as idiossincrasias ontológicas da masculinidade, arrisco dizer que a doce matriarca tem reservado um justo camarote no céu.

31 de Maio é o Dia dos Irmãos, aquilo que nós somos todo o ano, haja o que houver. Nenhum dos três pediu para nascer, da mesma forma que não reclamou que lhe fosse plantado um irmão no quarto ou na divisão ao lado. Julgo até que se nos distribuíssem um formulário para requisição de um aliado com vínculo biológico, representaríamos intelectualmente no pedido pessoas diversas das que significamos uns para os outros. Um irmão é uma fatalidade feliz. A tradução mais perfeita da liberdade de aceitar quem se tem, embora não tendo escolhido. É a morada da infância. Aquele que procura no irmão um vislumbre de si perde. O que encontra no irmão o pedaço da verdade que lhe falta ganha.

A trilogia que inaugurei tinha tudo para ser uma simples sequela separada por três anos. Todavia, converteria o conceito de irmandade numa série com vários episódios encadeados, óbvios, previsíveis e calculados - atributos estranhos à sua configuração instável. Ela baralha-se e reinventa-se num chorrilho de incoerências, contrastes, paradoxos, inconclusões. É a dúvida permanente sobre as razões da diferença que nos separa, copiosamente repetida, que desvenda a vontade em procurar a ponte comum; ou seja, é na efervescência do que nos distingue que encontramos a paz da união que nos liga.

Entre mim - gosto mais de comunicar abertamente -, o João - gosta mais de raciocinar matematicamente - e o Nuno - gosta mais de estudar exaustivamente - há um contrato não escrito: nada prevalecerá sobre o amor que faz de nós irmãos. Esse é o limite imanente das zangas, discussões, disputas, divergências. A regra de ouro que investe a confiança de que nenhum de nós faltará nos momentos melhores, piores ou assim-assim. O código de honra para nos admirarmos quando esbarramos nas singularidades que gizam o perfil do outro.

Sendo homólogos do avesso, bebemos da igualdade para crescermos. Da educação que recebemos dos nossos pais, contámos sempre com idêntico suporte de resposta às nossas complexas necessidades, a palavra certa que variava na abordagem e apontava ao mesmo fim. Aprendemos que o melhor de ter é poder partilhar. Que a essência dos afectos está em não discriminar preferências. Que somos iguais no que é principal e pólos de sinal contrário no que é adjectivo. Que os sonhos ou se multiplicam por três ou são pesadelos.

Quando estudávamos no Colégio Militar, cruzávamo-nos ocasionalmente no frenesim militarista que ditava o ritmo dos dias. Embrenhados nos afazeres individuais, havia sempre tempo para um beijinho - despojado de inseguranças ou vergonhas - e para a pergunta sincera: "Precisas de alguma coisa?"

Já nessa altura, a moral da nossa história era o dogma da nossa trindade, escrito a várias mãos: somos ramos do mesmo tronco, partes uns dos outros, primeiros amigos irredutíveis no bem e no mal, família radicada na comunhão e num único coração.

Advogado e Presidente da JP - Juventude Popular

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