Os sortudos do Rivoli

O festival Porto/Post/Doc apostou e bem em dois filmes que nunca vão ser vistos em salas de cinema. Dois filmes que tinham de ser vistos em sala de cinema. The Beguiled, de Sofia Coppola, filme incómodo nesta altura em que as aparências dos assédios são sensíveis e Voyage of Time, de Terrence Malick. Sim, Malick e Coppola apenas para os sortudos que anteontem e ontem foram ao Rivoli. Os programadores do festival tiveram "olho" e fizeram aos portugueses serviço público. Não se trata de demonizar as distribuidoras que decidem não levar certos filmes para as salas. Sabe-se que cada vez mais é difícil convencer os americanos a investir num país com um parque de salas tão pequeno e com bilhetes dos mais baratos na Europa, mas também corta-nos o coração quando são despejados nos cinemas, todas as semanas, em números avassaladores, filmes sem méritos. Cinema feito por tarefeiros que o público, muito naturalmente, acaba por ignorar.

Para o Porto/Post/Doc fazer o pleno com inéditos que só vão ser vistos no mercado do home cinema, só faltava exibir o muito celebrado A Ghost Story, de David Lowery (onde existe um elenco com Casey Affleck e Rooney Mara) e o bem simpático Battle of the Sexes, de Valerie Faris e Jonathan Dayton, com uma prodigiosa Emma Stone. Vai assim o nosso mercado, mercado esse também capaz de ser o primeiro em todo o mundo a apostar no maldito (mas tão irresistível) I Love You, Daddy, de Louis C.K.,já em exibição a partir de quinta.

E, atenção, sou dos que considero Voyage of Time um bom argumento para os haters de Malick continuarem o crescente achincalhar em torno do seu cinema. Mas, caramba, é Terrence Malick! Qualquer dia, para vermos um P. T. Anderson, temos de rezar que os seus filmes façam "números suficientes" na América... Ao que isto chegou!

Jornalista de cinema

Ler mais

Exclusivos

Premium

Pedro Lains

O Brasil e as fontes do mal

O populismo de direita está em ascensão, na Europa, na Ásia e nas Américas, podendo agora vencer a presidência do Brasil. Como se explica esta tendência preocupante? A resposta pode estar na procura de padrões comuns, exercício que infelizmente ganha profundidade com o crescente número de países envolvidos. A conclusão é que os pontos comuns não se encontram na aversão à globalização, à imigração ou à corrupção política, mas sim numa nova era de campanhas eleitorais que os políticos democráticos não estão a conseguir acompanhar, ao contrário de interesses políticos e económicos de tendências não democráticas. A solução não é fácil, mas tudo é mais difícil se não forem identificadas as verdadeiras fontes. É isso que devemos procurar fazer.

Premium

João Almeida Moreira

1964, 1989, 2018

A onda desmesurada que varreu o Brasil não foi apenas obra de um militar. Não foi, aliás, apenas obra dos militares. Os setores mais conservadores da Igreja, e os seus fiéis fanáticos, apoiaram. Os empresários mais radicais do mercado, que lutam para que as riquezas do país continuem restritas à oligarquia de sempre, juntaram-se. Parte do universo mediático pactuou, uns por ação, outros por omissão. Os ventos norte-americanos, como de costume, influenciaram. E, por fim, o anticomunismo primário, associado a boas doses de ignorância, embrulhou tudo.