Evoluímos muito entre o comboio como principal veículo de locomoção no século XIX, o automóvel no século XX - que permitiu a mobilidade social entre o campo e a cidade -, e o século XXI, onde as plataformas de uso sem posse são a tendência que mais interessa às novas gerações, deixando construtores preocupados, mas decididos a tomar rédeas..As novas formas de transporte, como o car sharing, são um desafio para os bancos e para as gestoras de frotas, e um dilema para fabricantes. Embora impliquem menos carros a circular, significam uma utilização mais intensa. Mesmo com inúmeras vantagens para os serviços pós-venda, afeta a capacidade de produção, que não para de aumentar. As experiências permitem perceber os modelos de utilização, a forma de fabricar e o preço. Mas, e no futuro, serão construtores de automóveis ou fornecedores de mobilidade?.Apesar deste novo conceito, os mercados estão a produzir mais financiamento a particulares e produtos all included. No entanto, o produto financeiro que mais cresce no mercado é o crédito clássico com duração mais prolongada. Os clientes parecem estar a dizer-nos que estão pouco disponíveis para aderir a esta tendência!.A mobilidade urbana e nas províncias são realidades essencialmente diferentes, para as quais poderão existir soluções opostas, mas complementares. Na cidade as famílias vivem uma mobilidade intermitente, que poderá ter agregação de serviços como meios de transporte tradicionais, car sharing, ride sharing, entre outras. É o triângulo casa, trabalho, escola, em contexto superpovoado..Em oposição temos a mobilidade na província, onde não se pode viver sem carro, pelo menos em Portugal, porque as plataformas não cobrem essas áreas de utilização menos intensas e as redes de transporte público não são lineares. O triângulo casa, trabalho, escola é mais difícil de enquadrar sem a posse de um carro..Além desta dualidade, as dúvidas entre a viabilidade económica dos modelos de plataforma, onde apenas se gerem e disponibilizam serviços, e a dos modelos de stock, onde os bens são um ativo do operador e como tal têm de ser financiados, são questões que ainda não têm resposta. Estamos perante modelos economicamente sustentáveis? E a que preços? Sob a forma de stock ou de plataforma? Como se sustenta a operação logística, disponibilidade, limpeza, abastecimento de combustível ou de eletricidade e o sistema de pagamento? Ou estamos numa economia exploratória, numa excitante operação de marketing em que todos parecemos acreditar na sua bondade?.Temos mais dúvidas do que certezas sobre qual o caminho desta evolução, bem como nos modelos prevalecentes a médio prazo. Mas temos pelo menos uma certeza: nada será como antes. O carro autónomo, o estilo de vida dos millennials e dos seus filhos impõe um caminho inexorável, que aponta para a mobilidade. Coabitarão a posse e o uso, mas as formas que estas tomarão, isso não sabemos..Diretor Automóvel no BNP Paribas Personal Finance Cetelem