O jornalismo tem de explicar-se, as fake news nunca o farão

Caros leitores,

gostava de começar este texto com um compromisso: o trabalho de um jornalista, como o meu, é sempre questionável. Todos os leitores podem, e devem, querer saber como se chega à informação. Por isso, os textos de jornal são assinados. Este jornalista, seguindo um método, que tem regras, conta esta história. Se há dúvidas, esclareçamo-las.

Este jornalista tem passado as últimas semanas a trabalhar num tema: as fake news. Digo-o, assim, em inglês porque é mais simples. O tema é o da "desinformação". A informação que não o é. A mentira.

Comecei esta saga com um trabalho sobre uma montagem fotográfica de uma líder partidária portuguesa. Dizia essa montagem que ela (Catarina Martins, do BE) usava um relógio que custava 20,9 milhões de euros. Segui o método que uso sempre para escrever esta notícia. Verifiquei quem difundiu a imagem. Foi um site chamado Direita Política. Procurei saber quem faz esse site. Foram dias de pesquisa. É fácil encontrar um IP (a morada de um site na internet). Qualquer um o pode fazer no seu computador. O mais difícil é encontrar o registo desse IP (que neste caso era longínquo, no Canadá). E ainda mais difícil é fazer corresponder esse registo a uma pessoa concreta.

Por isso é que o método dos jornalistas importa (chama-se verificação dos factos). Neste caso, uma das fontes documentais que consultei indicava que o dono do site era um outro português, com o mesmo nome do verdadeiro dono. Pedi ajuda a pessoas que percebem mais de registos de internet do que eu. Chateei, insisti. E finalmente percebi que as fontes, mesmo as credíveis, podem errar. Por isso é importante sermos céticos. Podemos descobrir erros e não os publicar.

Sabem o que fiz? Telefonei a essa pessoa e disse-lhe: cuidado. Disse-lhe que uma entidade lhe atribui, erradamente, a autoria de um site de notícias falsas. Acho que assustei esse cidadão, que é dono de uma agência de comunicação, em Portugal.

Quando tive a certeza de quem era o autor do Direita Política, e consegui o seu telemóvel (acreditem, não é fácil...), telefonei-lhe. Antes de lhe poder fazer perguntas, tive de pesquisar, em bases de dados especializadas (do ministério da Justiça, de registos empresariais, etc), quem era aquela pessoa. Quando tinha isso tudo, e as importantes respostas que o autor do site em causa me deu, escrevi. Tive o cuidado de não julgar as ações. De as tentar explicar, à luz daquilo que me tinha dito o seu autor. Por uma razão, fácil de entender: mesmo as más ações têm uma justificação. O jornalismo depende - vive - dessa riqueza. O bem e o mal não são critério nosso - quem lê decide.

E o que decidiram alguns leitores? Que eu estava a escrever um texto persecutório. Que só por se chamar Direita Política é que o site tinha sido alvo do meu trabalho. Que não há redes que difundem mentiras políticas em Portugal. Ou, pelo contrário, que há agora como sempre houve.

Tentarei explicar: é verdade que a mentira e a política têm uma relação longa. Havia fake news na Grécia antiga, na Roma de César, e muito provavelmente em todos os sistemas políticos que conhecemos desde então. Mas a importância atual deste tema é bem mais recente. Começou em meados de 2016, durante a campanha presidencial americana, quando Craig Silverman, editor do siteBuzzfeed, reparou num estranho detalhe. Havia textos a circular nas redes sociais, construídos como se fossem notícias, com informações falsas. Do género: "Papa Francisco apoia Donald Trump" ou "Investigador do FBI que pesquisa caso de Hillary Clinton aparece morto em casa". Notícias falsas, replicadas como verdadeiras, e aceites por milhares de pessoas. O Buzzfeed investigou a autoria destas mentiras e chegou a uma estranha conclusão: elas tinham sido criadas todas numa pequena cidade da Macedónia, na Europa, chamada Veles. Depois, um complexo sistema informático tratava de as difundir no Facebook, seguindo o caminho ditado por um algoritmo criado para perceber quem seriam os alvos mais crédulos. A partir daí, foi uma praga: todas as eleições posteriores foram marcadas por esta distorção. A mentira propagou-se mais depressa que a verdade.

Por isso, aqui no DN, numa reunião normal de ideias, surgiu a sugestão: por que não tentamos encontrar fake news portuguesas? Foi assim que chegámos às duas primeiras mentiras: a foto de um jantar em casa de José Sócrates, acompanhada de uma legenda que indicava a presença da atual PGR; o relógio caro de Catarina Martins.

A realidade é sempre complexa. Este caso prova-o. Escrevi a notícia, que incluía uma clarificação do autor do site. Não fora ele a manipular a imagem de Catarina Martins, apenas a difundiu. Na verdade, quem, de facto, manipulou a imagem tinha uma intenção oposta à do site que a difundiu, fê-lo para combater as fake news.

O autor da imagem é um anti-populista, anti-mentiras e boatos, de direita. Militante do PSD. Eleito numa lista do PSD e do CDS. Essa foi a história que escrevi na semana seguinte: o autor da manipulação tentou mostrar o risco que existe, nas redes sociais, de reagirmos apenas com base nas nossas convicções epidérmicas. Se odiamos alguém na política, tendemos a acreditar em tudo o que lemos sobre ela.

A resposta à outra crítica que foi lançada sobre os trabalhos do DN é essa: as fake news são mais utilizadas por sectores de extrema-direita (ou alt-right), não só em Portugal mas no mundo inteiro. Há trabalhos académicos que o demonstram, como este. É da Universidade de Oxford a conclusão: a difusão de mentiras políticas não é uniforme no espectro político. Há uma estratégia, há financiadores conhecidos, há países envolvidos (como a Rússia) na sua difusão. Foram usadas por apoiantes de Trump contra Clinton, de Bolsonaro contra os seus adversários, pela campanha do Brexit contra o "remain", por Le Pen contra Macron, pelo 5 Estrelas e pela Liga italiana, pelos partidos anti-emigrantes na Alemanha, na Áustria, na Suécia. Esta é a realidade. Só esta: há um setor político específico que usa esta estratégia - chama-se populismo nacionalista e quer derrotar tanto a esquerda como a direita que conhecemos.

Nada disso impede, é claro, que o DN investigue mentiras difundidas pela esquerda contra a direita. Quando qualquer leitor tiver conhecimento de uma, agradecemos que nos envie a informação. O meu mail é este: paulo.pena@dn.pt

Qualquer notícia falsa que esteja nas redes sociais, seja de esquerda ou de direita ou de centro, que minta sobre Assunção Cristas, Rui Rio, António Costa, Jerónimo de Sousa ou Catarina Martins (ou qualquer outra pessoa, seja qual for a sua opinião) será tratada neste jornal, da mesma forma.

Assim chegamos ao texto desta semana, com uma mentira sobre o primeiro-ministro António Costa. Curiosidade: quem me alertou para esta fake news não foi ninguém próximo do PS, foi um eleito do PSD - preocupado com o tema.

Passei os dias seguintes a fazer o que devo: a seguir um método. Cheguei a um IP, encontrei um registo (em Odivelas), descobri as ligações desse registo a outros sites, procurei referências. Cheguei a um nome. Cheguei a um telemóvel.

Liguei. A primeira pergunta que fiz foi a óbvia: bom dia, é o autor do site Gazeta Política? A resposta foi afirmativa. Passámos dezenas de minutos a falar. A complexidade voltou a mostrar-se. O autor do site tinha sido dirigente de um partido, agora diz-se apartidário. Já apoiou o CDS e o PS. Escrevi isso tudo.

No twitter - rede que não frequento por desconsiderar as minhas opiniões - escreveu-se, de novo, que isto é apenas uma perseguição. Que não se percebe a insistência no tema.

Este é um dos raros casos em que tenho uma opinião formada. Este tema definirá, no futuro, a forma da nossa democracia. Leiam as caixas de comentários dos sites que citei. Vejam quantas mensagens anti-política lá estão, e de desconfiança nos media, e de ódio. Não há muito que um jornalista possa fazer quanto a isso. Descobrir de quem são os sites difusores de mentiras, quem os paga, por que o fazem, se têm ou não qualquer relação com Estados estrangeiros, é o meu modesto contributo para - pelo menos - mostrar aos leitores que devem ser cépticos. Que devem desconfiar do que dizem os jornais (e exigir explicações), mas devem sobretudo desconfiar do que circula, por atalhos, nas redes sociais, sem nenhum nome que assuma a autoria, ou sem um título que garanta a responsabilidade.

O que importa, no fim, é o que Hannah Arendt escreveu, há muitos anos, no seu Truth and Politics (Verdade e Política): A liberdade de opinião é uma farsa quando a informação factual não está garantida, e quando os factos, eles próprios, são controversos.

Desculpem-me o excesso, mas vou terminar com outra opinião: a melhor forma de combater a mentira é combater a simplificação.

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