O fim da ETA e a luta pela memória coletiva

Formalmente iniciado em 2011 com o anúncio do "cessar definitivo" da violência, o colapso da organização terrorista ETA agravou a luta pela memória coletiva do povo basco. As vítimas e uma parte importante da sociedade espanhola temem que o fim da violência apague o passado e, dessa forma, se indultem os responsáveis por crimes de sangue e se legitime o ideário que amparou décadas de terrorismo. Temem ainda que não haja justiça para os cerca de 360 homicídios reivindicados pela ETA que permanecem com autores materiais incógnitos. Tendo em conta algumas declarações de partidos e ativistas que apoiaram a ETA, o receio não é descabido. Estas tensões e temores têm reflexo em todo o espectro partidário e são causa de clivagens profundas na arena política.

O comunicado divulgado ontem, no qual a ETA assume "responsabilidade direta" pelo "sofrimento desmedido" e pede perdão, é encarado pelas associações de vítimas e por determinados setores da sociedade como propaganda. Por duas razões. Primeiro, equipara etarras condenados e a monte às vítimas assassinadas pela organização. Segundo, não abrange os polícias, políticos e magistrados que foram mortos - exclui, portanto, todos os envolvidos naquilo que a ETA apelida de "conflito". São, lê-se no comunicado, "necessidades de todo o tipo de luta armada".

Porém, o tom e o conteúdo do comunicado são inauditos e globalmente positivos. O anúncio de dissolução oficial da ETA, esperado a 5 de maio, deverá insistir neste registo de assunção de responsabilidades, acrescentando-lhe a colaboração com a justiça. Disso depende a normalização política e social do País Basco. E de toda a Espanha.

Analista de Risco Político

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