O contributo da Índia para as ciências

Ao falar da ciência e da sua relação com a universidade veio à baila quando se criou a primeira universidade do país. E ao tentar saber da primeira universidade do mundo vieram palpites, todos a localizarem-na na Europa. Há a firme convicção de que a Europa detém o monopólio do saber científico.

Quando revelei que foi na Índia, ouvi comentários cínicos, talvez a disfarçar a ignorância e a desvalorizar o facto. Infelizmente, a abertura mental para entender que houve culturas pujantes fora da Europa com saberes avançados em astronomia, medicina, matemática, etc., é algo que custa a aceitar...

A primeira universidade foi de Taxila, dos séculos VI a.C. e V d.C., no Punjab.

A idade de admissão era de 16 anos e ensinavam-se 68 matérias: vedas, línguas, gramática, filosofia, medicina, cirurgia, tiro com arco, política, estratégia da guerra, astronomia, contabilidade, comércio, documentação, música, dança, representação, futurologia, ciências ocultas, cálculos matemáticos complexos. Chegou a ter mais de dez mil estudantes, da Babilónia, Grécia, Síria, China, e do Hindostão. Entre os professores famosos citam-se (para os incrédulos): Kautilya: estadista do século IV a.C.; foi PM do imperador Chandragupta Maurya; os seus pensamentos estão no Arthashastra; Panini: autor da gramática de sâncrito, escrita no século V a.C.; Jeevak: primeiro médico da história (antes de Hipócrates) e estudou em Taxila; Vishnu Sharma: pensador e autor do Panchantra, uma coleção de fábulas pedagógicas, entre muitos outros. O conceito de universidade de alto nível intelectual é, pois, da Índia.

Outra universidade da Índia situou--se no atual rstado de Bihar, a Universidade de Nalanda, dos anos 500 a 1300 da nossa era, até ser destruída pelos invasores (infelizmente, estes foram muitos ao longo da história da Índia!).

A sua atividade granjeou fama; dispunha de laboratórios e uma torre de observação e pesquisa astronómica e uma grande biblioteca Dharma Gunj ou Montanha do Saber, em três edifícios. As provas de admissão eram exigente, entrando apenas três em cada dez. O viajante chinês Hien Tsang escreveu no seu diário: havia em Nalanda dez mil estudantes e 200 professores.

A Índia foi pioneira em saberes que possibilitaram desenvolvimentos futuros nas ciências, na medicina, na matemática ou na astronomia. Só para exemplificar:

- A Índia inventou o sistema numérico. Aryabhatta inventou o zero. Einstein dizia: "Devemos muito aos indianos, que nos ensinaram a contar, sem o que nenhuma descoberta científica relevante poderia ser feita."

- Ayurveda é a mais antiga escola de medicina conhecida.

- Bhaskaracharya calculou o tempo que leva a Terra para orbitar o Sol era de 365,258756484 dias.

- Maharshi Sushruta é o pai da cirurgia. 600 anos a.C. já se faziam cirurgias como cesarianas, a cataratas, próteses de membros, pedras nos rins e ainda cirurgia plástica.

Houve múltiplas invasões da Índia por países, atraídos pela riqueza e saber, sempre na mira de dominar e roubar, sobretudo os britânicos.

Atribui-se a Lord Macaulay as seguintes afirmações no Parlamento britânico, em 2-2-1835: "Viajei ao longo da Índia, tomei-lhe o pulso e não vi uma só pessoa mendiga ou ladra. Vi tal riqueza no país, tais valores morais, pessoas de tal calibre que não penso ser possível alguma vez conquistar este país, se não quebrarmos a coluna vertebral desta nação que é a sua herança espiritual e cultural; e daí que proponha substituirmos o seu velho e antigo sistema de educação, a sua cultura, porque se os indianos pensarem que tudo quanto é estrangeiro e inglês é bom e melhor do que o seu, acabarão por perder a autoestima, a sua cultura nativa, e eles tornar-se-ão o que queremos, uma nação verdadeiramente dominada."

Angus Maddison, economista inglês do século XVII. Quando ela produzia 27% da riqueza mundial, em 1700, a Europa toda só produzia 23 %. Quando o Reino Unido deixou a Índia, em 1950, esta só produzia 3%! Entre 15 e 30 milhões de indianos morreram, entre 1850 e 1950, de fome e epidemias e os colonizadores não fizeram absolutamente nada. Pior ainda: no ano 1943, com Churchill como primeiro-ministro, este deixou morrer quatro milhões de indianos, no Bengal Ocidental, quando havia mantimentos armazenados. Churchil, cínico e cruel, obstinou-se em não deixar distribuir, apesar das insistências dos seus "comissários" locais.

O governo indiano legítimo tomou medidas para produzir alimentos e afastar de vez o espectro da fome e do sofrimento. A produção de cereais e leite foi crescendo com rapidez aplicando os avanços da técnica, como a revolução verde; a vacinação das crianças e medidas de prevenção de doenças foram-se generalizando e o ensino foi ampliado, com a ideia de retomar o brilhante passado científico.

Hoje, há muita investigação nas empresas privadas, indianas e multinacionais e há organismos estatais que promoveram 43 centros das diversas especialidades, como o NIO - National Institute of Oceanography, de Goa. Há um Centro de Investigação Nuclear e a ISRO - Indian Space Reseach Organization, que em junho passado lançou um foguetão para pôr em órbita geoestacionária 20 satélites, preparando-se para lançar outro que levará 103 satélites em fevereiro de 2017.

Há mais de 1100 multinacionais com vastas operações de R&D na Índia, uma delas com mais de 150 mil pessoas. O total de R&D feita na Índia pelas empresas aumentou 115% no período de 2007 a 2015, alcançando o valor de 28 mil milhões de dólares.

Professor da AESE - Business School e Dirigente da AAPI - Associação de Amizade Portugal-Índia

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