Notas sobre a publicidade do eucalipto

Não costumo ler anúncios, pois são sempre interesseiros e, na maioria das vezes, ilusórios. Como compro e leio diariamente Jornais, no dia 14 deste mês chamou-me à atenção uma bela fotografia da copa muito ramificada de um eucalipto que ocupava uma página inteira dos Jornais Diários, seguida de duas outras páginas inteiras de um texto com uma lista de subscritores. Apercebi-me imediatamente que se tratava de um amplo e dispendioso anúncio (três páginas) e não o li, como sempre faço com qualquer anúncio, até com os que, abusivamente, me enchem a caixa do correio.

Porém, acabei por ter de o ler pois além de ter sido publicado nos Jornais do dia seguinte, nos Semanários e até nalguma Imprensa Regional, também várias pessoas me recomendaram a leitura, pois sabiam que eu há mais de três décadas alertara para o desastre ecológico que estavam a criar em Portugal.

Ao lê-lo, primeiramente julguei já estar completamente senil (tenho 85 anos), pois, como botânico, já estive e estudei vários ecossistemas florestais naturais do Globo Terrestre e sempre considerei que aquilo a que se chama carvalhal é uma floresta e que um eucaliptal não é uma floresta. Falei com familiares e amigos, para ter a certeza que ainda não baralho conceitos. Ainda pensei ir a um neurologista, mas considerei que não era necessário, pois ainda recentemente tinha sido aceite para publicação numa revista científica estrangeira (Kew Bulletin) um artigo meu com a descrição de uma espécie nova para a ciência, existente numa floresta tropical africana. Se estivesse senil, o artigo não estaria em condições de publicação.

Segundo os critérios inseridos no texto do referido anúncio, a Floresta Atlântica da América do Sul, de que restam apenas 6% do que existia quando o Brasil foi descoberto, seria uma mata. Aliás, os brasileiros designam-na por "Mata Atlântica" e à Floresta Equatorial da bacia do Amazonas, por "Mata Amazónica". Os redactores do texto é que não se lembraram disso, pois teriam possibilidades de baralharem ainda mais a população portuguesa.

Também fiquei espantado com o conceito de biodiversidade, quando nos querem convencer que os eucaliptais têm muita biodiversidade. Toda a gente sabe que a biodiversidade desses ecossistemas antrópicos é baixíssima e até muitíssimo mais baixa do que a de um baldio. Não é preciso ser-se cientista para alguém se capacitar disso. Por exemplo, não vejo rebanhos de ovelhas a pastarem em eucaliptais, mas vejo-as nos baldios.

Outra atitude indecorosa é quererem convencer toda a gente que os eucaliptais não são tão inflamáveis como os ditos matos. Sou biólogo e botânico, por isso, durante os estudos universitários tive várias disciplinas de Zoologia, Botânica e Química. Além disso, como tive um grande professor de Química (Rómulo de Carvalho, o Gedeão), que me ensinou racionalmente as reacções químicas e como doutorei gente em plantas medicinais (grande parte são aromáticas), sei química suficiente para saber que as essências elaboradas pelos eucaliptos são muito voláteis e altamente inflamáveis. Por favor, não considerem que as pessoas não são minimamente instruídas ou que são estúpidas.

Claro, que a retórica economicista é própria da sociedade de mercado em que estamos inseridos. Mas, como as pessoas não comem eucaliptos, eu preferia que o meu país produzisse alimentação suficiente, até para exportar (para a "tecla" das divisas), do que tenha de importar, como estamos a fazer. Os países árabes são, actualmente, muito ricos, mas não estão a preparar os respectivos países para o futuro, pois importam praticamente toda a alimentação. Um dia poderão ter muito dinheiro, mas se não tiverem ninguém que lhes venda a comida, morrerão à fome de nada lhes valendo a riqueza. Se Portugal investisse na produção alimentar, estava a preparar melhor o país para o futuro, poderia exportar, não tinha o país tão poluído, não teríamos incêndios tão devastadores e mortíferos, assim como não estaríamos a transformar as nossas montanhas em desertos de pedra. Claro que no texto do dito anúncio pró-eucalipto, não se refere a tremenda poluição das águas do Tejo, nem o cheiro nauseabundo das regiões da Leirosa, Cacia e Setúbal. Nem sequer querem ver que estão a poluir a "gaiola" (Globo Terrestre) onde eles próprios vivem. Aliás, muitos deles sabem disso, mas são tão egoístas que preferem deixar que o problema seja resolvido pelas gerações vindouras, porque, por agora, conseguem ainda viver, com abundância e fausto, apesar do grau de poluição que o Globo já apresenta.

Infelizmente estão a provocar a morte ecológica do meu país que, actualmente importa madeira de carvalho, pois já não tem carvalhais para poder ser exportador (traria divisas em vez de as gastar ao importar), porque nunca arborizamos o país desflorestado com os nossos carvalhos. Foi pinheirar e eucaliptar desmesuradamente, cobrindo, densamente, grande parte das nossas montanhas de pinhais e eucaliptais contínuos e contíguos.

Biólogo

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