Maio de 68: uma revolução que também foi da linguagem

O Maio de 68 foi há 50 anos. Ainda me lembro bem do que foi e do profundo alcance que teve nas nossas vidas, apesar do crivo apertado e constante da censura e da dificuldade de prever o que viria a acontecer depois.

Recordo-me de tudo ter começado ainda em Março em Nanterre e da forma como nos primeiros dias de Maio ganhou a dinâmica e o impulso transformador que trouxe para as ruas de Paris centenas de milhares de jovens em estado de revolta que contestavam o poder político, o poder hierárquico da universidade, as forças policiais, a presidência de De Gaulle e a própria confusão ideológica do Partido Comunista Francês, no mesmo ano em que, no mês de Agosto, as tropas soviéticas invadiram Praga e liquidaram qualquer esperança de vitória de uma liberalização que poderia ter travado a barbaridade da longa ocupação soviética.

As greves foram selvagens e imensas. Tudo se transformava em cada dia que passava e a própria linguagem se metamorfoseava à medida das mudanças físicas e políticas que, a um ritmo frenético e empolgante, se iam operando.

Em Portugal, sobretudo no espaço intelectual e político da universidade, todos queriam lá estar, mesmo sabendo que era muito difícil e que uma das consequências daquele impressionante acto de revolta de rua viria a ter consequências no país em que vivíamos, atormentados pelo Guerra Colonial que incessantemente fazia novas vítimas e tornava distante e incerta a evolução da política e da vida académica, militar e laboral, quando Abril, ainda desprovido da sua radical carga transformadora, era apenas mais um mês no mapa.

A verdade é que o nosso Maio de 68 foi uma etapa fundamental para criação da crise académica de 1969, que tive o privilégio de viver na Faculdade de Direito de Lisboa, numa época em que a canção política, com José Afonso regressado de Moçambique em 1967, constituía já um poderoso instrumento de combate. Muito do que havia a dizer dizia-se a cantar, e foi assim que Grândola, Vila Morena, canção composta em 1964 e estreada na Galiza no início dos anos 1970, se converteu num excepcional instrumento de mobilização e de consciencialização de largos sectores da população portuguesa, dos estudantes aos operários, passando pelos católicos progressistas, acabou por conquistar o direito de ser a senha do vitorioso levantamento militar.

Mas o Maio de 68 foi também uma revolução na linguagem, graças ao poder libertador dos slogans que enchiam as paredes, as ruas e os espaços da universidade em Paris, dizendo muito mais do que os imperativos ideológicos exigiam que fosse dito.

Hoje, a França e a Bélgica têm as bancas das livrarias merecidamente carregadas de livros de vários formatos que recordam com palavras e imagens a euforia colectiva desse tempo de revolta e de esperança que ninguém sabia como iria terminar. Tenho comigo um exemplar do livro Les Murs Ont la Parole - Mai 68 (Ed. Points). Nas suas páginas encontramos alguns do slogans de referência da nossa revolta urbana. Alguns breves e tocantes exemplos: "Vibração permanente e cultural", ""Recusemos o diálogo com quem nos matraqueia", "Um homem não é estúpido ou inteligente; ou é livre ou não é", "Eu decreto o estado de felicidade permanente", "Basta de igrejas!", "Todo o reformismo se caracteriza pelo utopismo da sua estratégia e pelo oportunismo da sua táctica", "A burguesia não tem outro poder para além de degradar todos !", ou "Vivam os estudantes de Varsóvia", ou ainda "Camaradas, armem-se!".

Tudo assim se dizia, mesmo que quisesse dizer pouco e deixasse o essencial por dizer. Nesse sentido, o Maio de 68 foi também e sobretudo uma revolução no domínio da linguagem, dos conceitos e dos valores. Quando Daniel Cohn-Bendit, que conheci em Lisboa no princípio dos anos 90 do século passado, e com quem bastante conversei, discursava era de certo modo a nossa voz que ouvia no eco da sua, poderosa e mobilizadora.

O Maio de 68 também nos deu coragem bastante para sair à rua e agitar a universidade em 1969 e para dizer com comovente convicção que o nosso Abril já não poderia ser adiado, porque estávamos fartos da guerra, de Caxias, de Peniche, do terror, da arbitrariedade e do medo. O Maio de 68 foi possível porque havia democracia em França, mesmo fragilizada e aflita, e porque tinha chegado o momento de começar um novo ciclo a partir da valentia insensata das ruas, com os operários e os polícias confusos e divididos.

Mesmo à distância, o Maio de 68 também foi a nossa vitória e chegou como notícia e promessa às tropas que faziam a guerra em Angola, Guiné e Moçambique. O Maio de 68 foi a promessa da liberdade que seis anos depois todos celebraríamos nas ruas de Lisboa, ainda com muitos slogans revolucionários rumorejando no nosso espírito inquieto e revoltado. Estava assente que iríamos vencer e que essa seria também, com a força e a legitimidade dos capitães de Abril, a vitória da justiça, da dignidade e da solidariedade, porque o Maio de 68 foi, como disse há dias um filósofo francês, uma revolução humanista que se cumpriu também na e pela linguagem. Abençoada linguagem revoltada da nossa esperança inadiável. Também assim nos transformámos e tornámos livres. Até hoje, para o melhor de nós e do nosso tempo.

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