Lá se vai o circo

Nesta quadra da Natividade e três dias antes da noite mágica do Natal, o nosso Parlamento vai discutir um projeto de lei apresentado pelo PAN - Pessoas Animais e Natureza, partido político que diz ocupar-se destas três coisas, não sei se todas ao mesmo tempo, se uma de cada vez. O Parlamento não podia arranjar melhor altura para encher de alegria quem ainda acredita no nascimento de Cristo. E isto porque pretende o PAN acabar de vez com a utilização de animais nos circos, proibindo todas as espécies, reencaminhando-as para reservas e, em caso de não acatamento, aplicar-lhes um regime contraordenacional e criminalizar-lhes as condutas. O projeto de lei vai certamente ser aprovado e, como é de esperar, o "Maior Espetáculo do Mundo", que é o circo, vai acabar.

Lembro-me de quando era criança e os animais ocupavam o centro da minha infância e seguiram comigo pela adolescência fora. Colecionava álbuns sobre a vida animal, deliciava-me a ver filmes com animais, e admirava as várias espécies de aves que figuravam nas lojas de venda, existentes na Rua do Arsenal ou no Mercado da Ribeira. Walt Disney ensinou-me que os animais são seres afetuosos, que a Minnie amava o Rato Mickey e o Pato Donald a Margarida. Os estúdios da Warner Bros trouxeram a aventura, a sagacidade e a bravura do coelho Bugs Bunny, do pato Duffy, do canário Piu-Piu e do gato Silvestre.

Recordo-me ainda dos burros ou das mulas com atrelado que transportavam produtos hortícolas e galináceos em gaiolas para os mercados e o que sobrava era vendido nos bairros onde contavam com freguesia certa. Depois foram desaparecendo da cidade. Hoje, os animais citadinos são os domésticos, que vivem connosco, e os ratos, porque Lisboa já não é todas as noites lavada a agulheta e as sarjetas não são desentupidas.

Os pretensos caminhos civilizacionais nem sempre seguem linhas retas, mas sim linhas tortuosas, como esta que nos quer impor o fim do circo tradicional. Uma pista de circo tem 13 metros de comprimento, porque é a distância mínima para que um cavalo possa correr a galope. O circo é os animais, os palhaços e os trapezistas. É também o mestre-de-cerimónias que anuncia os respetivos números, muitas vezes aportuguesando nomes supostamente estrangeiros.

Quanto aos animais, sejam eles o elefante, o leão, o tigre, os cavalos ou os cães, esses conferem grandiosidade ao espetáculo e permitem a proximidade com o público, sobretudo com as crianças. Por isso, a proibição que se avizinha, para além de empobrecer o circo, não vai proteger os animais, antes afastando-os do convívio humano para reservas, onde uns quantos iluminados entendem que os animais que tanto dizem proteger vivem felizes. Tal como os índios nos EUA ou no Canadá.

O paradoxo é que se acaba com os animais no circo, mas existem outras atividades culturais e não culturais que utilizam animais para o entretenimento: os espetáculos de golfinhos e de leões-do-mar, nos parques aquáticos, os campeonatos de dressage da Federação Portuguesa Equestre, as corridas e largadas de touros, os campeonatos de pombos-correios, etc.

No que diz respeito ao circo, aí parece não haver preocupação em ver que um circo sem animais não é circo, antes se transformando num espetáculo de poesia, teatro e acrobacia, belo, sem dúvida, como aquele que é praticado pelo famoso, riquíssimo e barroco Cirque du Soleil, mas que é tudo menos circo. O circo com animais passará a ser digital, lembrando os videojogos, em que os domadores lidarão com as feras, e assim será conhecido pelas novas gerações às quais já há muito roubaram os palhaços para os transferir para outros circos.

Sócio partner da Dantas Rodrigues & Associados

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