Grau e meio de responsabilidade política

Um artigo sobre clima tem tudo para começar pela negativa, apregoando o fim do mundo e a falta de vontade de o salvar pela maior parte da sociedade de consumo que nos rodeia. Mas tentemos começar por valorizar o caminho que estamos a fazer na Europa: enquanto a UE tem estado na linha da frente do combate às alterações climáticas, outras potências mundiais, como os EUA ou a China, acreditam que o degelo glaciar lhes pode dar outros mares para navegar, o que teria sido o grande sonho de qualquer governante... há quinhentos anos.

O clima não conhece fronteiras, não é um problema deste ou daquele país, desta ou daquela população. É uma causa global que junta os que fazem ações de rua, os que inventam formas de atenuar os danos do consumo e os que podem disciplinar a globalização e comprometer o mundo com o crescimento sustentável. Os alarmes soaram e todos somos chamados a impedir que o aquecimento global suba mais do que 1,5 graus Celsius: é apenas um grau e meio de responsabilidade política, social e cultural que se exige a cada um de nós.

Agora há uma nova tendência a ganhar força: o public shaming ambiental. Critica-se quem viaja de avião para ter uma reunião que poderia ter feito online, quem consome uma peça de fruta exótica importada em vez de consumir produtos locais com menor pegada carbónica, e até quem se limita a reciclar em vez de fazer reutilização do que gasta. Os comportamentos estão a mudar e isso é de facto assinalável. Ainda assim, 1 milhão de nós a fazer isso por ano não compensa um dia de produção de energia elétrica tradicional. Mas isso não significa que deixemos de ter uma responsabilidade. Significa que temos um grande desafio: ajudar a política e os políticos a promover medidas arrojadas de combate às alterações climáticas, estando disponíveis para os acompanhar nesse desiderato.

Não foi muito depois de termos elogiado Greta pelo seu discurso no Parlamento Europeu, ou de termos posto os olhos nos estudantes que se manifestaram pelo planeta, que vimos o país andar desesperadamente em busca de combustíveis fósseis porque outra greve tinha entrado em cena. Não podemos esperar transformar sistemas capitalistas em economias circulares do pé para a mão sem correr o risco de falhar às pessoas. Só podemos esperar ser ousados e ponderados ao mesmo tempo e a única forma de o fazermos é a política.

Se a União Europeia gasta milhões por ano em subsídios à exploração de combustíveis fósseis porque a economia não subsiste sem eles, então investir no futuro é apostar muito mais em descarbonizá-la. A união energética é uma promessa por cumprir que dificulta que países como Portugal apostem mais em produção de energia renovável (porque não a pode escoar para outros países da União). O esforço no setor das transações comerciais pode ser reforçado, com sanções a países que não cumpram as suas quotas de emissões ou a governos que não fomentem compras sustentáveis na sua administração pública.

E, claro, a mobilidade tem de ser a principal aposta! A política pode fazer grandes reformas com as pessoas, desde que não seja moralista e se limite, por exemplo, a dizer-lhes que têm que andar de transportes públicos porque isso é bom para o ambiente. É fácil dizer isso quando se tem motorista e não se tem de levar os filhos à escola de manhã... Ainda há quem precise mesmo de se deslocar em transporte particular, pela simples razão de que o transporte público não é um serviço melhor ou uma alternativa sequer aproximada. Investir no futuro é também fazer da mobilidade limpa uma realidade que sirva de facto as pessoas - o que nos devia preocupar especialmente dado o estado obsoleto e desgastado em que se encontra uma parte significativa dos meios de transportes públicos em Portugal, sendo difícil vislumbrar os investimentos para os melhorar, porque estamos permanentemente a investir para os desbaratar.

Está aí o desafio, e e a proibição de plásticos descartáveis é sem dúvida uma vitória para a UE. Este será um dos temas quentes nas próximas duas semanas, até porque agora o clima é trendy o suficiente para alguns dos partidos nacionais fazerem outdoors dedicados à causa (outra vez com grandes frases de promessa de resolução de todo o problema). Espero que possa pelo menos influenciar os partidos europeus a fazerem uma maior reflexão sobre o tema, que se traduza em medidas concretas, porque se as propostas forem mais reciclagem e menos plástico estaremos só a assistir ao filme do costume: à política (demasiado) atrasada e a ser ultrapassada pela realidade.

*Presidente do Conselho Nacional da Juventude

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