Galiza e Trás-os-Montes partilham Entrudo milenar único
Desde que tenho uso da razão que me lembro de a minha mãe insistir na importância do Carnaval galego (entroido) e das suas milenares tradições gastronómicas e socioculturais pré-romanas que se mantiveram até aos nossos dias no Noroeste peninsular. Aos galaicos (Gallaeci) da Galiza e aos Brácaros (Bracari) do Norte de Portugal devemos o Carnaval, Entroido ou Entrudo, mais antigo e genuíno dos que se celebram atualmente em Espanha e em Portugal, que nem os romanos nem a posterior cristianização conseguiram fazer desaparecer.
No caso da Galiza, os quarenta anos que durou a ditadura do general Franco, na qual se proibiram os carnavais em todo o território espanhol, não foram impedimento para que o Entroido se continuasse a celebrar com a mesma paixão, se bem que com mais discrição, sobretudo na província de Ourense, nos municípios de Verín, muito perto de Chaves, Laza, Xinzo de Limia, Vilariño de Conso, Maceda e Viana do Bolo. Os cigarróns de Verín, homens mascarados e vestidos com trajes coloridos, os peliqueiros de Laza, as pantallas de Xinzo e os boteiros de Viana do Bolo, são apenas alguns exemplos das máscaras com as quais os rapazes da região saem para as ruas das suas terras para desfilar perante as raparigas e realizar os seus rituais, em alguns casos durante cinco semanas, como acontece em Xinzo de Limia e Viana do Bolo, desde o domingo Fareleiro até ao domingo de Pinhata, com o qual o município de Ourense dará por terminado o seu peculiar Carnaval no próximo dia 5 de março. Coincidindo em algumas coisas, os oito Entroidos galegos, considerados de interesse turístico nacional, mantêm e difundem os rituais milenares aprendidos dos seus antepassados e transmitidos de geração em geração.
Paralelamente, do outro lado da fronteira, em Trás-os-Montes, o Entrudo também sobreviveu às influências externas, e celebra-se hoje com todo o seu esplendor, em alguns casos desde janeiro, de uma maneira muito parecida com a dos seus vizinhos galegos ou de Zamora até à Quarta-Feira de Cinzas. Em várias aldeias dos municípios de Vinhais, Bragança, Macedo de Cavaleiros (sobretudo em Podence) e Vimioso e no Alto Douro em Lazarim e em Lamego, os seus rapazes voltaram a vestir-se neste Carnaval de 2017 de caretos, com as máscaras e roupas coloridas com as quais os seus pais e antepassados percorriam com os seus característicos ruídos as ruas das suas povoações. A semelhança é tão grande entre os rituais e as máscaras da província de Ourense, Zamora e da zona de Trás-os-Montes e do Alto Douro que não é de estranhar que muitos turistas quando se realiza o desfile da Máscara Ibérica pelas ruas de Lisboa, nos finais de maio ou princípios de junho de cada ano, não distingam "Quais são as portuguesas e quais as espanholas?" como me aconteceu há uns anos com uns turistas brasileiros.
Uma autenticidade de rituais
Em Podence é muito típico que durante o Entrudo os caretos ponham em marcha as suas características "chocalhadas" para sinalizar e apoquentar simbolicamente as raparigas presentes, além de roubarem das casas alguns enchidos típicos ou vinho para elaborar e acompanhar as ementas à base de carne e enchidos do Carnaval. Outro dos momentos tradicionais é o do pregão com que se dá início ao Carnaval e os versos e canções cheios de humor que se compõem para a ocasião. Na Galiza acontece algo muito parecido, o ruído, as canções e os versos também estão muito presentes no ritual do entroido. Ainda que talvez o mais peculiar e chamativo seja o de Laza, onde na passada terça-feira os peliqueiros, similares aos cigarróns de Verín, percorreram a vila com as pesadas cocas ou cencerros, fazendo muito barulho e atirando farinha e formigas às raparigas que encontravam à sua passagem. Depois da malfeitoria, os próprios peliqueiros oferecem um pedaço de bica, um biscoito da região, aos assistentes.
A gastronomia do Entroido galego
Seria impensável viver o entroido galego sem desfrutar da sua gastronomia mais genuína, que tem como protagonista indiscutível o cozido, um pouco diferente do do lado português, que não é acompanhado com arroz, mas sim em alguns casos com molho de tomate e onde a perna de porco curada com grelos ou nabiças, a orelha e o entrecosto de porco, a carne de vitela, o chouriço, o grão e as batatas são os produtos estrela. Em localidades como Viana do Bolo come-se por estes dias a androlla, um delicioso enchido.
Há duas sobremesas típicas que não faltam nas mesas galegas do carnaval até ao próximo domingo: as filloas, parecidas com os crepes, mas que são feitas com água em vez de leite e são recheadas com mel, natas ou creme, e as orejas, que têm uma massa semelhante à dos coscorões, mas que têm a forma de orelha de porco.
Os vinhos de Godeio, Valdeorras e Ribeiro, assim como o licor de café, encerram com chave de ouro uma excelente refeição do entroido galego.
Correspondente da Cadena Cope e do La Voz de Galicia

