Como é, para um imigrante, passar o Natal fora do seu país?

Um dia destes estava no salão de uma indiana, arranjando as unhas com uma ucraniana, e eu, a cliente brasileira, comentei:"a gente descobre que virou portuguesa quando começa a achar estranho passar o Natal com uma temperatura de 40 graus, como normalmente é no Brasil", pelo que fui contemplada com duas deliciosas observações: enquanto a proprietária do salão explicou que, nesta época do ano, na região da Índia da qual descende faz frio, "mas nada que se compare ao frio de Portugal"; a ucraniana contrapôs, "para mim, o estranho é passar o Natal sem neve!"

Este episódio fez-me pensar em como nós, imigrantes, podemos viver momentos como o Natal, de maneiras tão diferentes, e em como as comparações com o país de origem acabam por ser inevitáveis.

Todas as nossas impressões e estranhamentos dependem dos nossos referenciais, e, no caso de uma festa cristã como o Natal, das nossas crenças religiosas também. Mas independentemente destas crenças (assunto que não pretendo abordar neste artigo), o facto é que durante este período temos a tendência de olhar para os hábitos e costumes que precedem esta festa de uma maneira muito mais crítica. Comparamos o clima, a gastronomia, as decorações, as roupas, as confraternizações, enfim... E nestas comparações, enquanto o alento de alguns está em tentar manter os laços com a cultura de origem (daí reunirem--se com pessoas da mesma nacionalidade e procurarem manter os hábitos que tinham na terra natal), para outros, a maneira menos dolorosa de viver esta época é tentar esquecer a cultura de origem, imergir no diferente, e abrir-se para conhecer cada vez mais a cultura de acolhimento. Deste modo, enquanto os primeiros correm o risco de fecharem-se sobre a sua própria cultura, para os segundos, a cultura do outro, que no início era "estranha", pode tornar-se "normal", e a sua, antes considerada a "normal", pode tornar-se a "estranha".

Mas o facto de começarmos a estranhar algumas coisas do país de origem, e não mais nos surpreendermos com outras no país de destino, não significa que estamos perdendo os nossos referenciais, mas que, ao conhecermos novas perspetivas, passamos a ter mais parâmetros de comparação para escolhermos quais são as que nos agradam mais. Por isso não, eu não virei portuguesa só porque comecei a estranhar o calor durante o Natal no Brasil, no entanto, após vivenciar um Natal com frio em Portugal, elegi este clima para esta época do ano.

Tenho, entretanto, consciência de que para muitos imigrantes (entre os quais os brasileiros) o clima frio pode sim mexer com o humor, e ser responsável por uma "sensação de tristeza". Do mesmo modo, para aqueles que durante toda a vida viram a neve cair no Natal, o triste pode ser, justamente, não nevar nesta data.

Além disso, sei que devemos diferenciar aqueles que passam o Natal em Portugal por opção, daqueles que não têm outra opção, senão passar o Natal em Portugal. Enquanto para os primeiros pode tratar-se de uma "nova experiência", e despertar-lhes "um misto de euforia e saudades"; para os segundos, tal experiência pode ser traumática. Sendo o Natal conotado como uma "festa em família", o sofrimento pode estar, simplesmente, em não se ter a opção de passar com ela. Assim, torna-se muito mais difícil ver a beleza desta festa em qualquer parte do mundo, quando o mais importante não é a festa em si, mas sim a família que não conseguimos ter por perto.

Portanto, a maneira com que cada imigrante vive esta época do ano pode sofrer a influência do clima, das relações familiares, mas depende, sobretudo, da disponibilidade que cada um tem para viver o novo, conhecer outra cultura, e abrir mão de algumas relações, hábitos e costumes. Não, não é fácil, mas sim, é possível! Mesmo no frio (ou ainda que sem calor, praia, férias, família e amigos), mesmo com bacalhau e bolo-rei (ou ainda que sem tender ou panetone) devemos nos esforçar para fazer desse dia um dia feliz. Por isso, façam o favor de terem um Feliz Natal!

Ler mais

Exclusivos

Opinião

DN+ João

Os floristas da Rua da Alegria, no Porto, receberam uma encomenda de cravos vermelhos para o dia seguinte e não havia cravos vermelhos. Pediram para que lhes enviassem alguns do Montijo, onde havia 20, de maneira a estarem no Porto no dia 18 de julho. Assim foi, chegaram no dia marcado. A pessoa que os encomendou foi buscá-los pela manhã. Ela queria-os todos soltos, para que pudessem, assim livres, passar de mão em mão. Quando foi buscar os cravos, os floristas da Rua da Alegria perguntaram-lhe algo parecido com isto: "Desculpe a pergunta, estes cravos são para o funeral do Dr. João Semedo?" A mulher anuiu. Os floristas da Rua da Alegria não aceitaram um cêntimo pelos cravos, os últimos que encontraram, e que tinham mandado vir no dia anterior do Montijo. Nem pensar. Os cravos eram para o Dr. João Semedo e eles queriam oferecê-los, não havia discussão possível. Os cravos que alguns e algumas de nós levámos na mão eram a prenda dos floristas da Rua da Alegria.

Opinião

DN+ Quem defende o mar português?

Já Pascal notava que através do "divertimento" (divertissement) os indivíduos deixam-se mergulhar no torpor da futilidade agitada, afastando-se da dura meditação sobre a nossa condição finita e mortal. Com os povos acontece o mesmo. Se a história do presente tiver alguém que a queira e possa escrever no futuro, este pobre país - expropriado de alavancas económicas fundamentais e com escassa capacidade de controlar o seu destino coletivo - transformou 2018 numa espécie de ano do "triunfo dos porcos". São incontáveis as criaturas de mérito duvidoso que através do futebol, ou dos casos de polícia envolvendo tribalismo motorizado ou corrupção de alto nível, ocupam a agenda pública, transformando-se nos sátiros da nossa incapacidade de pensar o que é essencial.