Assistentes

Entrei na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa em 1984, no curso de Escultura. Um dos meus professores era Jorge Vieira, com quem, no contexto escolar, fui desenvolvendo uma imediata e crescente empatia. Apesar de ser uma pessoa "difícil e exigente", criámos desde logo uma mútua proximidade e, apesar de todas as diferenças que existiam entre nós, a nossa relação foi crescendo até se tornar uma grande amizade, que se prolongou depois do curso até à sua morte, em 1998. Para mim, enquanto jovem aspirante a artista, o seu exemplo como grande artista era inspirador, pois tinha por ele uma enorme admiração, era um nome mítico da escultura nacional. Em 1986, quando era aluno do 2.º ano, Jorge Vieira convidou-me a colaborar com ele na execução de uma grande escultura em mármore, dedicada ao mineiro de Aljustrel. Esses trabalhos duraram dois anos, nos quais eu passei algumas temporadas (uma semana ou duas, de cada vez) na sua casa em Estremoz, onde ia desbastando o enorme bloco de pedra, seguindo o modelo de gesso que Jorge Vieira tinha executado. Era um trabalho muito duro, mas guardo as melhores memórias daqueles dias em isolamento e silêncio, onde, para além do trabalho árduo, havia espaço para conversas e "discussões artísticas", para além da excelente culinária que ele desenvolvia. Não cheguei a levar a escultura até ao fim, pois a fase final, e mais difícil, foi entregue a um profissional, que a terminou.

No meu ateliê, nunca tive nenhum assistente. Só consigo trabalhar sozinho, não gosto de partilhar aquele espaço íntimo com ninguém. Preciso da solidão absoluta para fazer o meu trabalho, não consigo imaginar o meu espaço ocupado por qualquer outra presença.

Já me aconteceu, pontualmente, ter a ajuda de um amigo (quando construi o ateliê, em 1993) para realizar ou pintar algumas peças. Da mesma forma, há alguns anos, tive no ateliê o filho de amigos meus, de quem muito gosto e que conheço desde criança, a ajudar-me a executar uma enorme escultura durante dois meses (o que foi uma excelente surpresa, pois revelou-se muito talentoso e responsável, para além de me ter feito pensar que, afinal, era possível partilhar o meu espaço de trabalho...). Mas foram, apenas, situações pontuais e excecionais. De resto, os meus dias no ateliê são absolutamente solitários.

Quando comecei a trabalhar em ferro, há praticamente 30 anos, fazia eu mesmo tudo: soldaduras, acabamento e pintura final. Com o progressivo aumento da quantidade de trabalho e compromissos, passei a recorrer à indústria metalúrgica para os trabalhos de reforço, acabamento e pintura, tal como para a realização das peças de grande dimensão, por vezes também em fábricas de indústria pesada. Normalmente, o que acontece é eu trabalhar sozinho, no ateliê, construindo e soldando as peças até ao ponto em que podem seguir para a oficina profissional, com a qual trabalho há 25 anos, onde serão fortalecidas, terminadas e pintadas. Da mesma forma, é essa equipa que costuma realizar e colocar todas as minhas esculturas de grande formato em Portugal (e, por vezes, também no estrangeiro), bem como montar as próprias exposições. Nesse sentido, atendendo à longa, permanente e intensa relação de confiança que desenvolvemos, poderemos considerar que esta pequena equipa, para além de me dar todo o apoio técnico de que necessito, também funciona como um grupo de assistentes: no seu espaço próprio, não no meu.

Escultor

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