A propósito da polémica sobre o Museu das Descobertas. Equívoco, teimosias e hipersensibilidades

O equívoco

Seis meses depois das eleições autárquicas surgiu uma reacção a um dos pontos do programa eleitoral de Fernando Medina que propunha a criação de um Museu das Descobertas, o que suscitou uma carta, que também assinei, em que se criticava o nome do museu. No meu caso fi-lo por entender que o processo de expansão ultramarina portuguesa que deve ser musealizado é muito mais amplo, no tempo, no espaço e nas suas dinâmicas, do que a simples sequência de navegações e explorações dos séculos XV e XVI. Confundir a conquista de Ceuta ou de Goa bem como a colonização do Brasil, por exemplo, com os Descobrimentos é uma generalização errada que, no fundo, criou um mito. A carta saída no Expresso tinha como pretexto um hipotético museu, mas logo a polémica ficou centrada na palavra e nas suas leituras sem que ninguém tentasse discutir conteúdos. Estava criado o equívoco, se é que não foi um embuste.

Teimosias

Os críticos da carta do Expresso entrincheiraram-se na epopeia nacional sem tentarem perceber os argumentos de um conjunto de académicos que há muito estudam séria e sistematicamente o tema. Mas a resposta à crítica trouxe a terreiro outros mitos e erros históricos eivados muitas vezes de anacronismos.

Os Descobrimentos e a Expansão Ultramarina portuguesa correspondem a um momento crucial da história do mundo que Pierre León, sob inspiração de Vitorino Magalhães Godinho, assinalou como o início da história económica global através da "descompartimentação" do mundo. As navegações quatrocentistas provocaram a maior revolução na história da humanidade desde o Neolítico e isso deve ser assinalado num museu em Portugal, mas sem que isso se transforme numa "gesta lusitana" ou numa epopeia maravilhosa e civilizadora, nem tão-pouco numa simples torrente bárbara que se limitou a espalhar o terror pelo planeta. O mundo mudou irreversivelmente sob o impulso de Portugal, o que gerou progressos científicos, enriquecimentos culturais, ao mesmo tempo que guerras e destruições e abusos dos mais fortes sobre os mais fracos, como sempre. O museu, que deve existir independentemente do nome, terá de evocar tudo o que se passou e na sua devida proporção, incluindo como é óbvio o comércio de escravos e o seu papel na sociedade e na economia.

Não faz sentido, porém, ostracizar a palavra "Descobrimentos" por estar alegadamente associada ao Estado Novo. É um erro grosseiro. Logo por meados do século XV tanto Zurara, o primeiro cronista, como Cadamosto, o primeiro navegador a relatar as suas viagens, realçaram que eram navegações por "mares nunca dantes navegados". O cronista usou a palavra "nunca" amiúde e o navegador relata mesmo situações de espanto mútuo entre os portugueses e os africanos - estavam ambos a descobrir-se simultaneamente. Logo em Os Lusíadas, Portugal é apresentado como o país dos Descobrimentos, e todos os regimes o defenderam depois. E no tempo de Salazar os maiores historiadores deste tema (Jaime Cortesão e Vitorino Magalhães Godinho) eram dois oposicionistas ao regime que sofreram o exílio devido à sua militância pela Liberdade. O Estado Novo limitou-se a prosseguir o que era feito sobre o tema há séculos; usou-o, é certo, para justificar a sua política colonial e a guerra, mas no seu tempo o tema também era estudado e desenvolvido internacionalmente por figuras relevantes da oposição democrática, o que demonstra que não era apenas uma causa do regime.

Também a ideia de que "descobrimento" é uma palavra eurocêntrica é um exagero. Mesmo que tenha sido usada por alguns num sentido unilateral e que ao falarmos, por exemplo, de Descobrimentos portugueses estejamos a pôr o foco sobretudo na acção dos portugueses, a palavra "Descobrimentos" em geral, como era citada a propósito do museu, reflecte um encontro mútuo que foi o que aconteceu nos séculos XV e XVI. Quando os portugueses chegaram ao Japão, descobriram este país ao mesmo tempo que os japoneses descobriram os portugueses e a amplitude do planeta que lhes era totalmente desconhecida. Maus usos de palavras não nos impedem de as reutilizarmos com o seu verdadeiro sentido e, neste caso, na sua verdadeira amplitude.

Reduzir a Expansão portuguesa a uma lenda negra e a uma sucessão de abusos não corresponde aos factos; basta lembrar que em muitos locais os portugueses estavam como aliados ou até pagavam, como sucedia em Macau. A ideia de que a memória contemporânea dos povos acerca da passagem dos portugueses pelas suas terras é negativa também só pode ser argumentado por quem nunca andou por essas mesmas terras. Naturalmente que há impressões negativas mas também as há positivas, bem como as neutras, como tive ocasião de experimentar desde o Brasil até ao Japão. Note-se que não estou a dizer que os portugueses são exaltados por todo o mundo, porque não é assim, mas tão-pouco são vilipendiados por todo o mundo. O caso mais significativo que conheço é o da estátua de Vasco da Gama na ilha de Moçambique: foi apeada em 1975 aquando da independência, mas o povo da ilha, com a autorização do governo, repô-la no mesmo sítio há alguns anos. Naquela estátua já não está o herói português, mas antes um homem que contribuiu para a grandeza daquela ilha. E na mesma ilha também persiste a estátua de Camões, o símbolo máximo das letras portuguesas. Por todo o antigo império português há mais de dez sítios que são hoje classificados como Património da Humanidade - monumentos com uma profunda marca colonial que foram incorporados como património dos países actuais.

Hipersensibilidades

Numa entrevista ao jornal i critiquei as pessoas que inventam uma história exclusivamente negativa de Portugal e disse que se não gostavam do país podiam ir embora, facto que gerou comoções e irritações. Sei que não fui politicamente correcto, mas não ofendi ninguém, e obviamente que as minhas palavras não podem ser vistas como ameaça de exílio ou como a vontade de excluir do território nacional os que pensam diferente de mim, como vi escrito nas redes sociais. Manifestei dessa forma o meu desagrado contra o pedantismo de quem só diz mal da "piolheira", mas não a larga. Fui truculento? Sim, mas em democracia e em liberdade temos direito a sê-lo, sobretudo quando estamos a debater com pessoas inteligentes que supostamente sabem distinguir a retórica do sentido literal. E não creio que tenha dito coisa mais truculenta do que quando um certo ministro disse publicamente que o que gostava mesmo era de "malhar na direita"; quando li essa declaração nunca me passou pela cabeça que o senhor quisesse andar a bater fosse em quem fosse, e a maioria dos que agora se irritaram então sorriram. E por isso serei truculento sem ofender sempre que o entender, sem nunca me deixar envolver pelas malhas de qualquer censura.

Historiador

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Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.