Há 75 anos a tentar salvar a Humanidade de si mesma

Todos os anos em setembro as ruas de Manhattan em Nova Iorque transformam-se no centro das reclamações do Mundo. Enquanto os líderes dos Países se reúnem na sede das Nações Unidas para debaterem o estado do Planeta, pessoas vindas de todos os pontos do Globo manifestam-se a favor ou contra todas as causas imagináveis, desde questões que mobilizam milhões como a defesa dos direitos humanos ou o combate às alterações climáticas, até questiúnculas tão obscuras que parecem importantes para apenas uma mão cheia de ativistas.

Para aqui chegarmos foram necessárias duas Guerras Mundiais e mais de 100 milhões de mortos no espaço de uma geração, forçando-nos a olhar coletivamente para o que tínhamos vivido e a criarmos as instituições multilaterais que ainda hoje organizam o nosso modelo de cooperação internacional.

Se em janeiro passado o multilateralismo já atravessava dificuldades, as dúvidas, os riscos e as angústias de hoje são muito maiores, pois quando toda a Humanidade se vê confrontada com a mesma ameaça, os sinais mostram que optámos por nos fecharmos, ignorando o óbvio: uma ameaça global e comum exige respostas igualmente globais e igualmente comuns.

Como lembrou a Aliança para o Multilateralismo na sua declaração de 16 de abril, "apenas construindo um Mundo mais sustentável e resiliente, através da cooperação internacional reforçada, seremos capazes de ultrapassar esta ameaça à Humanidade".

Ninguém nega que o sistema multilateral tem problemas e tem defeitos: um modelo de funcionamento complexo e muitas vezes ineficaz, um orçamento eternamente insuficiente para as tarefas que o Mundo lhe exige ou uma incapacidade estrutural de se reformar e atualizar são apenas algumas das queixas recorrentes que se ouvem nos corredores dos edifícios dos governos pelo mundo fora.

Mas talvez a mais interessante declaração sobre a importância e o papel do Multilateralismo nos nossos dias, tenha sido proferida pela Rainha Isabel II durante a visita do Presidente dos Estados Unidos a Londres em Junho de 2019, ao dizer que "quando enfrentamos os novos desafios do Século XXI, o aniversário do Dia-D lembra-nos o quanto os nossos países conseguiram em conjunto. Depois dos sacrifícios partilhados da segunda guerra mundial, (...) trabalhámos com outros aliados [para] construir um conjunto de instituições internacionais que garantissem que os horrores de um conflito nunca mais se repetiriam. Embora o mundo tenha mudado, nós temos sempre presente o objectivo original dessas estruturas: Nações a colaborarem para salvaguardar uma paz que foi muito difícil de se conseguir."

Quando vivemos coletivamente aflitos com o estado do Planeta e o multilateralismo está tão mal tratado, há algum conforto em pensar que é às portas das Nações Unidas que um mar de gente vinda das 7 partidas do Mundo se junta anualmente em Setembro para tentar mudar alguma coisa. O sistema das Nações Unidas é reconhecidamente imperfeito, mas é igualmente o único sistema multilateral de âmbito global que temos e, como disse o antigo Secretário-Geral da ONU Dag Hammarskjöld, as Nações Unidas não existem para levar a Humanidade para o paraíso, mas para evitar que acabemos todos no inferno. Feliz 75.º Aniversário, querida ONU!

Investigador Associado do CIEP / Universidade Católica Portuguesa
(As opiniões expressas neste texto vinculam exclusivamente o seu autor)

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