Goa: o tempo não volta atrás

"O tempo não volta atrás, mas o passado pode tornar-se o futuro, se soubermos tirar partido do passado", eis a síntese lapidar de Marcelo Rebelo de Sousa, ao referir-se às relações Portugal-Índia e, em especial, a Goa.

O Presidente da República proferiu estas palavras numa conferência em Goa, no sábado, em que destacou o sentimento que todos os portugueses têm quando chegam à que foi a joia da coroa: "Em Goa, sinto-me em casa. Já visitei tantas nações...Países pequenos, médios e grandes, mas tenho de confessar que esta é uma visita muito especial para mim. Faz-me lembrar o passado. Em Goa, sinto-me completamente em casa".

No entanto, salientou que não tem sentimentos nostálgicos: "Goa está integrada na Índia, mas é diferente...um lugar único...único onde encontramos o futuro, mas não nos fixamos no passado. É por isso que eu sinto que a minha vinda a Goa não é nostálgica".

Alexandre Moniz Barbosa, diretor do Herald (principal jornal de Goa), referiu no editorial de domingo, que " Goa pode ser considerada a base para um maior fortalecimento das relações entre a Índia e Portugal. Se Lisboa pode ser a porta de entrada para a Índia em relação à União Europeia, Goa pode, do mesmo modo, ser a porta de entrada de Portugal na Índia". Ainda hoje, há em Goa um significativo número de pessoas que fala português. O Instituto Camões e a Indo Portuguese Friendship Society promovem o ensino da língua portuguesa e a Fundação Oriente tem uma função cultural relevante. A Universidade de Goa tem um Departamento de Português, com licenciatura no nosso idioma.

Os benefícios para Goa de um aumento das relações comerciais, culturais e mesmo políticas com Portugal é imenso. O que atrai os turistas indianos a Goa, o estado mais pequeno da Índia, é a sua especificidade, o sentimento de que estão na Europa sem terem passado pelo controlo da imigração. Tal deve-se, em grande parte, à influência portuguesa, à longa história de partilha com Portugal, que quase sessenta anos de integração na Índia não conseguiram apagar.

Tal influência em nada prejudica a pertença de Goa à Índia. Porém, persistem receios infundados, bloqueios mentais que prejudicam as relações de Portugal com Goa. Ainda há quem, em Goa, não esteja convencido de que Portugal é uma democracia, que deixou de ser uma potência colonial e que não tem ambições neocoloniais. Certamente por isso, a própria visita de Marcelo quedou-se por pouco mais de 24 horas, com um programa muito discreto. Costa foi recebido com uma apoteose, em janeiro de 2017, a ponto de haver quem, com ironia, dissesse que ganharia as eleições locais se concorresse. Houve, obviamente, quem não gostasse de tal popularidade. Marcelo, por isso, não podia beneficiar do banho de multidão de que tanto gosta...

Seja como for, as relações estão no bom caminho e tudo indica que as sombras do passado não irão sobrepor-se à esperança no futuro...

Ex-presidente da Casa de Goa

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