Goa numa exposição do Museu do Oriente

Conforme informa Carlos Augusto Pulido Valente Monjardino, Presidente do Conselho de Administração da Fundação Oriente, a exposição patente no Museu do Oriente, em Lisboa, intitulada Histórias de Um Império - Colecção Távora Sequeira Pinto, embora seja apenas uma pequena parte da "colecção particular Távora Sequeira Pinto, de Artes Decorativas luso-orientais, é uma das mais importantes e significativas do género, quer a nível nacional, quer internacional."(1)

Curiosamente, o comissário científico desta exposição é Nuno Vassallo e Silva (2), precisamente, o neto do último governador do Estado Português da Índia, general Manuel António Vassalo e Silva.

As peças reunidas pelo apaixonado coleccionador, durante trinta anos, não só permitem conhecer e caracterizar os gostos do autor e do círculo das suas relações e influências, como também, e principalmente, as mais diversas histórias luso-orientais, decorridas ao longo de vários séculos.

Ao tempo, a Goa da longínqua Índia, como capital do Império Português do Oriente e centro importador e exportador de diversos tipos de peças produzidas naqueles confins do mundo, irmanava com Lisboa europeia , para lhe fornecer aqueles cobiçados produtos, vindos de locais estranhos e exóticos, que maravilhavam o Ocidente, encomendados por famílias reais e por abastados nobres, não só para usufruto pessoal como também para ostentação, simbolizando riqueza e poder.

As belas preciosidades, comercializadas nos mercados asiáticos, europeus, e mundiais, adquiridas também por particulares e coleccionadores endinheirados, não tardarão a ter uma visibilidade ainda maior ao serem expostas em museus.

Essas ricas produções artísticas, inspiradas ou não, predominantemente, por modelos e protótipos europeus, resultam do casamento de diversas peças, a começar por portuguesas, passando por indianas, centralizadas em Goa, e bebendo influxos ao longo da rota dos comerciantes e mercadores até chegar ao Japão e, por isso, como afirma Rui Oliveira Lopes (3, "não se pode falar de uma influência da arte europeia na Ásia, nem de uma hegemonia cultural da Europa sobre a Ásia, mas sim de um processo de convergência e transculturalidade, que se caracteriza pela fusão e criação de um novo fenómeno cultural e artístico" (p. 59).

Segundo Nuno Vassallo e Silva, a colecção em exposição documenta as profundas relações artísticas entre Portugal e as culturas do Império Asiático e ao "invés de outras colecções focadas no período dos Descobrimentos, geralmente mais especializadas numa ou noutra expressão plástica, como a porcelana chinesa, o mobiliário indiano, os marfins goeses ou as lacas japonesas, o acervo desta colecção documenta uma diversidade muito alargada de origens, tipologias e materiais" (p. 10).

Evitando uma leitura tradicional, esta exposição procura revelar, em oito núcleos diferentes, "a riqueza, a complexidade e a imensa beleza intemporal da arte produzida nas redes comerciais criadas por Portugal, um pouco por toda a Ásia, num verdadeiro ensaio visual de que a colecção é testemunha" (p. 11).

Na metodologia seleccionada para a apresentação da exposição, os decisores optaram por escolher oito histórias, "oito conjuntos de obras de origens culturais e materiais distintas, para nos ilustrarem a narrativa. Tratou-se principalmente de uma leitura sobre a colecção a partir de um pequeno número de obras que a constituem" (p. 11).

Os oito polos de atracção estão assim distribuídos: a viagem das formas, a religião, o poder, um mundo precioso, coleccionismo e ciência, quando éramos exóticos, o mundo do marfim e, por último, em busca da laca.

Como visitei a exposição para encontrar nela as marcas identitárias goesas, face ao elevado número de peças observadas, vamos referir às respeitantes a Goa, constantes apenas nos primeiros quatro núcleos centrais, com a prestimosa ajuda dos textos dos autores do catálogo.

1. A viagem das formas

Qualquer viajante perscrutador, ao transportar o mundo a que pertence, procura descobrir, nas suas longínquas jornadas indagadoras, novas ideias e respostas às perplexidades, no decurso das pesquisas que faz das ignotas partes do mundo em investigação.

Conforme explica Pedro Dias (4), não são só os animais e plantas que viajam na aventura marítima portuguesa, nela dá-se também a Viagem das Formas, das estéticas e das técnicas.

Como consequência dessa longa viagem do oceano Atlântico para o Índico, na segunda metade do século XVI, a tipologia dos cofres portugueses começa a ser copiada no Guzarate, no Norte da Índia, em madrepérola e em tartaruga. "Anualmente, eram enviados muitos para Goa, de onde eram depois expedidos para Lisboa e aí vendidos aos comerciantes europeus" (p. 33).

O autor afirma que a escultura de madeira ou de pedra, que foi de Portugal, marcou a produção indiana nestes materiais e, no mobiliário, os modelos portugueses de cadeiras foram adoptados pelos imperadores na corte de Grão-Mogol. As cadeiras, produzidas em grande quantidade na zona de Sinde e de Cambaia, eram exportadas para Goa e dali para o resto da Índia, Ásia Oriental e Lisboa (p. 37).

Este núcleo de exposição tem peças goesas de escritório, caixa-escritório, ventó, cadeira de sacristia e mesas.

2. A religião

Segundo Rui Oliveira Lopes, Goa constituía o maior centro de produção de arte sacra, utilizada nas campanhas missionárias e também para fornecimento de encomendas europeias. Sendo ela miscigenada, na maior parte das vezes, eram "os próprios artistas indianos incumbidos da realização dos trabalhos de talha, douramento, escultura, têxteis, ourivesaria e, várias vezes, até de pintura"(p. 52).

Este núcleo tem peças goesas de oratório, oratório com calvário, cálice, sacrário, custódia cálice, custódia porta-paz, a escultura de São Francisco Xavier e de Santo Inácio de Loyola.

3. O poder

Para João Paulo Oliveira e Costa (5), as marcas dos homens do poder do Estado da Índia podem ser vistas na roupagem, nas cadeiras, porcelana, marfins, lacas e peças de mobiliário embutido (p. 80). Possuir um contador, pela sua forma e materiais constituintes, "é, por si só, uma demonstração de poderio e de importância, tanto pela riqueza dos materiais como pela originalidade no contexto europeu" (p. 87).

Este núcleo tem peças goesas de gaveta, gaveta/escritório, estante de missal e contador.

4. Um mundo precioso

Nuno Vassallo e Silva dá informações valiosas sobre ourivesaria e objectos preciosos afirmando que "A arte dos ourives asiáticos fascinou sempre os portugueses, como mais tarde as restantes nações da Europa. A vinda a Lisboa de Rauluchantim, natural de Caraim das Ilhas, chefe dos ourives de Goa, onde permaneceu entre 1515 e 1519 para trabalhar para D. Manuel, é o caso mais celebrado e paradigmático" (p. 97).

"As oficinas de Goa executavam obras em cristal de rocha, ouro, rubis e safira ... mantendo "sobretudo a partir dos finais do século XVI, o mais activo mercado de pedras preciosas provenientes de toda a Ásia" (p. 98).

Com a existência da Rua dos Ourives gentios, o cargo de ourives-mor de Goa e de mocadão dos ourives podemos imaginar a importância da ourivesaria nos negócios então efectuados.

A filigrana, desenvolvida no subcontinente indiano, sobretudo em Goa, é exemplificada na exposição com o belíssimo exemplo do ostensório.

Este núcleo tem peças goesas de cofre, relicário, base de pedra de Goa, espargidor de água de rosas e naveta.

Eu, que me contentava se encontrasse apenas escassas marcas identitárias de Goa, nesta rica exposição, tive a grata satisfação de, no lugar de pegadas dispersas, observar o esplendor do Oriente centralizado em Goa e Lisboa. Inferi também que as manifestações culturais e artísticas não têm pátria pois, quando são deslumbrantes, interpenetram e irmanam com vivências dos outros povos, países e nações dando origem a um todo singular, onde cada qual tem a sua quota-parte de propriedade e, não sendo pertença exclusiva de uma única entidade, pode ser reivindicada por todos.

Historiador

(artigo originalmente publicado n'O Heraldo de Goa)

Notas

(1)Histórias de Um Império, Colecção Távora Sequeira Pinto, Edição Fundação Oriente, Lisboa, 2021, p. 5.

Nas citações escrevemos apenas o número de páginas do livro do catálogo.

As fotografias que ilustram o texto foram tiradas da exposição da Colecção Távora Sequeira Pinto.

(2) Nuno Vassallo e Silva é doutorado em História de Arte e é presentemente Director da Delegação em França da Fundação Calouste Gulbenkian.

(3) Rui Oliveira Lopes é Professor Auxiliar de História da Arte e do Design, Faculty of Arts and Social Sciences, Universiti Brunei Daruassalam.

(4)Pedro Dias é Professor Catedrático aposentado da Universidade de Coimbra. João Paulo Oliveira e Costa é Professor Catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa.

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