Filosofia em tempo de crise

A situação de pandemia que atravessamos tem levado à adoção de medidas políticas excecionais. Com mais ou menos demora, os governos de todo o mundo têm procurado travar a investida desse inimigo silencioso, batizado de SARS-CoV-2, como se de uma guerra se tratasse. A declaração do estado de emergência, com as inevitáveis suspensões dos direitos e liberdades a que estamos habituados, foi posta em prática em muitas democracias pela primeira vez. Atividades comerciais e industriais consideradas não essenciais foram cessadas. Escolas e universidades foram encerradas. Milhões de pessoas foram colocados em isolamento social. Se no imediato estas medidas já são gravosas, a gravidade das resoluções governamentais torna-se ainda maior quando se percebe o impacto económico que elas acarretam. Não terá sido, pois, de ânimo leve que foram tomadas tais decisões. Poucas épocas políticas terão sido tão más para governar como aquela em que nos encontramos. Quando a tempestade sanitária passar e a poeira económica assentar, os eleitores recordar-se-ão sobretudo de quem os lançou numa crise que, certamente, será mais violenta do que a de 2008.

Para além de medidas políticas excecionais, esta situação pandémica impõe também esforços conjuntos dos diversos atores sociais, nomeadamente que cada qual desempenhe em circunstâncias tão adversas o seu trabalho secundando os demais. Aos médicos e restantes profissionais de saúde foi pedido que combatam a doença numa primeira linha. Mas o seu esforço será inglório se a produção e transporte de bens de primeira necessidade, assim como o seu comércio, não continue, ou se não houver quem assegure a recolha dos resíduos domésticos, as telecomunicações, o policiamento das ruas, etc. Hoje há quem, das suas casas, aplauda louvavelmente os médicos e enfermeiros, mas quem com tenacidade e sem proteção mantém o seu posto num supermercado ou num carro do lixo merece semelhante louvor. Somos todos precisos, essa é a lição.

Eu sou professor de filosofia numa universidade e desde o seu encerramento tenho lecionado as minhas aulas virtualmente. Estou convencido de que a pandemia poderá permitir-nos pensar numa sociedade mais sustentável, constituindo uma oportunidade para reavaliarmos muitas das nossas práticas. É isso que, no meu entender, se deve esperar da filosofia em tempo de crise: um contributo construtivo, que possa ajudar a que tenhamos todos uma vida melhor. Se os filósofos não colocarem o seu pensamento ao serviço da sociedade, alinhados com os desafios do momento, ele não servirá senão para o deleite dos próprios e, eventualmente, do círculo restrito que os rodeia.

Mas nem todos pensam assim. Numa série de textos publicados no sítio da editora Quodlibet, o filósofo italiano Giorgio Agamben interpreta muito singularmente aquilo que está a acontecer. O primeiro texto intitula-se "A invenção de uma epidemia" e data de 26 de fevereiro de 2020 [1]. Nesse dia havia já, de acordo com a OMS, 322 casos identificados e 11 mortes em Itália, isto para além de 78191 casos na China, com 2718 mortes associadas. Porém, esse pensador mundialmente famoso não teve qualquer pejo em desvalorizar a situação, falando numa "suposta epidemia" e acusando a comunicação social e o governo italiano de "difundirem um clima de pânico, provocando um verdadeiro estado de exceção", algo que redunda numa "verdadeira militarização", a qual, antecipava visionariamente Agamben, poderia em breve abranger todo o país. Segundo ele, pior do que a tentativa feita pelo poder político de retirar direitos e liberdades aos cidadãos era o facto de que hoje em dia "a limitação da liberdade imposta pelos governos é aceite em nome de um desejo de segurança". Poder-se-á dizer: estávamos a 26 de fevereiro e não havia assim tantos casos ou mortes, pelo que talvez Agamben não estivesse a ver quão grave era o problema e faça realmente sentido, no quadro da política italiana e europeia contemporânea, estar alerta para quaisquer autoritarismos. Efetivamente, mesmo com Matteo Salvini fora do governo, é preciso ter alguma cautela.

Mas consideremos o segundo texto, que tem por título "Contágio" e leva a data de 11 de março de 2020 [2]. Neste dia, a OMS registava, para além de 80955 casos e 3162 mortes na China, os seguintes números relativamente à Itália: 10149 casos e 631 mortes. Não é coisa pouca, convenhamos. E o que é que nos diz aí este filósofo? Ele chama-nos novamente a atenção para um "pânico que se procura por todos os meios difundir em Itália", lamentando o distanciamento que devemos guardar mesmo em relação aos nossos familiares, assim como o encerramento das instituições de ensino e a adoção da lecionação virtual, algo, na sua opinião, há muito procurado pelos políticos que nos governam. Do mesmo modo lança a suspeita de que a vontade governamental de que "deixemos de nos reunir e de falar acerca de questões políticas ou culturais", ficando nós limitados ao envio de "mensagens digitais", corresponde à tão almejada substituição pelos nossos dirigentes daquilo que é próprio do homem pelo trabalho da máquina. Será crível imaginar que na cabeça do primeiro-ministro Giuseppe Conte, a braços com um absoluto caos no seu sistema de saúde, pairava a ideia de que esta era uma boa oportunidade para impedir pessoas como Agamben de se reunirem e falarem de política ou cultura? Será imaginável que gente de quadrantes políticos tão diferentes como Xi Jinping, Donald Trump, Angela Merkel, António Costa, Pedro Sánchez e Pablo Iglesias, tenham conjurado com Conte esse ardiloso plano?

Debrucemo-nos sobre o terceiro texto, intitulado "Clarificações", datado de 17 de março de 2020 [3]. Ao passo que a China, segundo a OMS, contabilizava nesse dia 81116 casos e 3231 mortes, em Itália os números subiam para 27980 casos e 2503 mortes. Depois de a 16 de março Paolo Flores d"Arcais ter publicado um artigo na revista MicroMega com o título "Filosofia e vírus: os delírios de Giorgio Agamben", poder-se-ia esperar que estas "Clarificações" viessem esclarecer algum mal-entendido. No entanto, deparamos outra vez com a ideia de uma "onda de pânico que paralisou o país" e com a crítica aos seus compatriotas por estarem "dispostos a sacrificar praticamente tudo, as condições normais de vida, as relações sociais, o trabalho, até as amizades, os afetos e as convicções religiosas e políticas perante o perigo de adoecerem". Os italianos esqueceram as suas raízes e estão, portanto, vendidos à "sobrevivência". O grande perigo que enfrentamos, segundo Agamben, não é o vírus mas a desumanização e possível perda da nossa "sociedade livre". E Agamben conclui repetindo afirmações finais de "Contágio".

É muito interessante que Agamben acentue tanto o que entende ser já um indício do homem desumanizado, essa aceitação de "uma condição puramente biológica", e que no seu apelo ao lado afetivo, que indubitavelmente marca a nossa natureza, ele não tenha um único apontamento sobre os milhares de vidas que este vírus já tolheu. É muito interessante que Agamben chame tanto a atenção para o distanciamento desumanizante face àqueles que nos são próximos e que não tenha uma só palavra para os profissionais de saúde que, colocando em perigo a sua própria vida, horas a fio lutam para salvar quem possivelmente não conhecem de lado nenhum. É muito interessante que Agamben se preocupe tanto com as restrições atuais às aulas presenciais e às reuniões de âmbito político e cultural sem, contudo, dar mostras de compreender que, nesta conjuntura, que só tem paralelo com a das duas grandes guerras, aquilo que mais importa é haver comida nos supermercados, é haver água, luz, telecomunicações, é haver segurança, é haver recolha do lixo. O que a sociedade ocidental não precisa é de filósofos que se apresentem como enfants terribles, prontos a questionar qualquer ordem em prol de um ideal libertário que, se fosse seguido, nos conduziria ao abismo civilizacional. Que a ameaça desse abismo paira sobre nós, isso é evidente. Mas a resposta aos problemas ambientais, macroeconómicos ou virológicos não pode partir de uma desconfiança esquizoide em relação aos nossos governos. Em tempo de crise, a filosofia, tal como qualquer outra atividade humana, deve estar ao serviço da solução e não pode irresponsavelmente contribuir para amplificar o problema.

Este texto constitui uma versão abreviada do originalmente publicado em inglês no dia 26 de março de 2020 em https://horasis.org/philosophy-in-times-of-crisis/.

Professor de Filosofia na Universidade Nova de Lisboa

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