Europa e Donald Trump numa tenda de cerveja alemã

Como é que Merkel quer defender o continente europeu sem o apoio do poderoso aparelho militar americano?

A razão por que um discurso de um líder se torna histórico não depende só das palavras mas também do quando e do onde o discurso é feito. Com "sangue, esforço, lágrimas e suor", Winston Churchill apelou, em 1940, no parlamento em Londres, à necessidade dos britânicos de resistir à Alemanha de Hitler. Em 1963, John F. Kennedy fez o seu famoso discurso em Berlim Ocidental ("Ich bin ein Berliner" - Eu sou um berlinense) assegurando, aos 1,5 milhões de pessoas nas ruas de Berlim, que a parte livre da cidade nunca se ia tornar comunista. E no mesmo ano, Martin Luther King teve o seu sonho ("I have a dream") no auge da luta contra o racismo nos Estados Unidos, falando na Marcha sobre Washington em frente de uma multidão de 250 mil americanos.

Para alguns comentadores políticos, Angela Merkel fez o seu discurso histórico no passado domingo, após o encontro fracassado dos líderes mundiais com Donald Trump, expressando a ideia de que a Europa já não pode contar com o apoio dos americanos, e que agora é o momento dos europeus tomarem o seu destino nas próprias mãos. Não vou omitir que o local do discurso de Merkel não teve a mesma força simbólica que os locais dos discursos de Churchill, Kennedy e King: Merkel falou num "Bierzelt", uma tenda de cerveja onde os ouvintes bebiam, comiam salsichas brancas e moviam os seus corpos (sentados) ao ritmo da música tradicional de uma banda de sopro bávaro. No entanto, um discurso de uma líder conservadora alemã que aborda a ideia de que a Europa se tornará independente do poder militar e económico dos Estados Unidos, justifica por si só a classificação de "histórica", mesmo que fosse feito no meio de um grupo de bávaros ligeiramente alcoolizados.

Na minha infância, cresci no seio de uma família da esquerda pacifista alemã com a ideia de que os americanos eram uma banda de imperialistas que queriam controlar o mundo através do seu poder militar. Eram os tempos de Ronald Reagan e lembro--me de um cartaz político que ficou por muitos anos pendurado na entrada da nossa casa com o título "Nie wieder Krieg" (Nunca mais guerra), um apelo ao protesto contra a política do armamento nuclear americano, que mais tarde foi apoiado pelo chanceler conservador Helmut Kohl. Nesse tempo, parece que os meus pais e os seus amigos não tinham um desejo político maior do que ver o fim da cooperação militar entre a Europa e os Estados Unidos. Não deixa de ser irónico que Angela Merkel, considerada a afilhada política de Helmut Kohl, esteja agora a avançar com uma ideia que teve origem no campo político oposto ao do seu padrinho Kohl nos anos 80.

O que à primeira vista parece ser um apelo emocional de Merkel à defesa de alguns valores europeus (liberdade, cooperação e luta conjunta contra as alterações climáticas), suscita ao mesmo tempo duas grandes perguntas: Como é que Merkel quer defender o continente europeu sem o apoio do poderoso aparelho militar americano? E qual é o projeto deste continente europeu que às vezes parece um conjunto de estados com orientações parecidas e, que depois de uma crise prolongada, não sabe bem com que tipo de cooperação e com qual grau de união pode contar no futuro? Espero bem que o apelo de Merkel não seja usado apenas para justificar o gasto de rios de dinheiro na composição de umas forças armadas europeias poderosas, sem que antes seja claro o que é que estas forças devem defender.

Felizmente, há políticos na Alemanha que reconhecem que não basta pensar na Europa como uma resposta reativa a um presidente americano semilúcido. O ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, o social-democrata Sigmar Gabriel, respondeu a Merkel com uma interessante autor-reflexão crítica: "Se nós alemães continuamos a atuar junto dos estados da Europa do Sul como um professor arrogante de finanças públicas, estes estados não vão apoiar as nossas ideias."

Não me parece que o discurso de Merkel marque de facto o início de uma nova era europeia, mas sim o início da campanha eleitoral na Alemanha. No mínimo, é bom sinal que após anos marcados por um silêncio ensurdecedor, as questões relacionadas com o papel da Alemanha na Europa entrem finalmente num debate mais amplo no seio das principais forças políticas alemãs.

Jornalista alemão, a trabalhar em Portugal para Deutschlandfunk