Dona, querida

Dona. Cheguei à idade de poder ser chamada de "Dona". Isto não é de ontem, infelizmente, três vezes infelizmente! Bem sei que a fórmula é uma marca de cortesia, mas mesmo assim não consigo suportar isso. Há várias razões. Primeiro porque esta Dona é, na maior parte do tempo, seguida do primeiro nome Dona Marie-Line. E cada vez que oiço isto ponho-me a pensar: mas que eu saiba nós não criamos os porcos juntos! Uma expressão muito francesa para dizer que não somos íntimos a ponto de me chamarem pelo meu nome próprio. O que se subentende é que a situação cria uma certa proximidade, mas eu não quero alongar-me sobre isso... Dona Manuela, Dona Isabela... e num piscar de olhos estabelece-se uma espécie de familiaridade ao mesmo tempo em que numa fração de segundo a mulher assim designada de Dona passa a entrar na categoria de "velha", atingida pela cruel data de fim de validade que põe termo ao que supostamente dominou a sua vida: a procriação. E com esta palavra a retirar-lhe o direito de reivindicar uma vida emocional ou sexual.

Mas porque não usamos a palavra "Dom" quando se trata de um homem? Dom Miguel do talho onde costumo comprar as minhas costeletas de porco não é na realidade Dom Miguel. Ele é o Senhor Miguel. "Como está hoje, Senhor Miguel? Como é o seu porco hoje, Senhor Miguel?" Ele é Senhor, eu, Dona. Miguel é jovem ou velho, não importa, desde que o seu porco seja bom. Não pertence a nenhuma faixa etária e se eu contar à minha vizinha que "hoje os rojões do Senhor Miguel eram rijos", ela entenderá que falo do talho da esquina, onde ela também se abastece, mas não necessariamente de um jovem, um homem feito ou de um velho. A imagem mental que emerge na mente quando se evoca uma Dona é bastante precisa. Mas o efeito seria o mesmo com a palavra Senhora, não? De qualquer maneira, percebi a nuance que é introduzida quando se usa - às vezes, nem sempre - uma curiosa "Senhora Dona", seguida ou não do primeiro nome ou sobrenome. É realmente muito subtil. Aqui, uma ironia, ali uma maneira de mostrar que a pessoa de quem falamos é irritante ou desagradável. Além disso, o uso de "Dona" é um pouco depreciativo. Nós não dizemos "Dona arquiteta", "Dona professora". Não, é mesmo "Senhora arquiteta", "Senhora professora": uma mulher tratada por "Dona" automaticamente perde o seu título universitário ou profissional, mesmo que ela continue no ativo. É irritante! Parece que não só a data de validade foi atingida com a idade como também o direito a exercer uma profissão. Num país que estabeleceu a idade legal da reforma aos 66 anos e cinco meses, muitas donas com cabelos brancos ou tingidos continuam a trabalhar. Elas podem, em boa verdade, assim como os senhores, continuar a ser arquitetas ou professoras, como é costume. Ou, pelo menos, Senhora.

O dicionário é claro: o 5.º significado da palavra "Dona" é o equivalente a Senhora. Mas é o quinto sentido... e é especificado no Priberam que é um significado "informal". Mas podemos consolar-nos. O mesmo dicionário indica (segundo significado da palavra) que dona designa uma senhora nobre, uma dama. Como em Madame, o título de civilidade que é concedido à maioria das mulheres francesas. A palavra bonita, com o cheirinho medieval, de Mademoiselle está hoje reservada às mais jovens, a quem o muito sério e respeitoso Madame não se aplicaria de modo nenhum. Os formulários burocráticos tendem hoje a nivelar a distinção. Sob a influência de algumas correntes feministas que consideraram depreciativo o uso do título Madame apenas para mulheres casadas, viúvas ou divorciadas, a lei mudou em 2012. O termo Mademoiselle aplicado a adolescentes ou mulheres solteiras de meia-idade está a desaparecer da nossa linguagem corrente. No entanto, não é muito importante, porque cada vez mais usamos fille (menina), femme (mulher), meuf , nana, belette, gonzesse (gaja). Temos de admitir: o português, geralmente bastante excêntrico no uso de títulos e qualificativos que mudam conforme o lugar, o momento, o grau de parentesco, o nível de qualificação e a hierarquia (ufa!), torna-se tímido quando se trata de falar do género feminino. Usa "gaja" ou "fulana", sinónimos de "tipa", e pouco mais (vamos esquecer o termo "bomba" ou outro deste género que não tenha nada que ver com o assunto tratado aqui).

Não se cansam de me explicar que dona também significa chefe, patroa, proprietária (terceiro sentido da palavra), mas não há nada a fazer: eu não gosto de Dona. Mas pronto, não é muito grave! O Senhor Miguel, do meu talho, que conhece a minha suscetibilidade na matéria, muitas vezes diz-me, em jeito provocatório mas com gentileza: "Sai um lombo de porco, hoje, querida?" E isso eu adoro.

Correspondente da Radio France Internationale

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