Dívida (líquida) das SAD

A UEFA publicou, esta semana, o relatório The European Club Footballing Landscape, que procura oferecer uma visão abrangente sobre o estado financeiro dos clubes participantes nas provas europeias. Para o elaborar, utilizou a informação financeira prestada pelos próprios clubes, no âmbito do processo de licenciamento exigido no acesso às competições e da avaliação do cumprimento dos critérios do fair play financeiro.

O relatório é extenso, está recheado de informação relevante acerca das finanças do futebol europeu e vai já na sua oitava edição. Em Portugal, o enfoque foi dado a um gráfico publicado na página 124 que, conforme foi noticiado pela generalidade da comunicação social, revela que o Benfica é "o clube com a segunda maior dívida europeia".

O curioso é que a informação veiculada não consta no documento da UEFA. Além do mais, os dados reportam a 14/15 e se os atualizarmos e projetarmos ao exercício seguinte (2015/16), estimo que, em números redondos, a dívida líquida do Benfica desça de 336 para 325 milhões de euros, o Porto passe de cerca de 130Meuro para os 160Meuro e o Sporting cresça de 135Meuro para 155Meuro - embora no caso do Porto, o valor incorpore apenas 47% dos custos financeiros associados à construção do estádio e no caso leonino convém ter em atenção o efeito das VMOC, que transformaram dívida financeira em capital.

E também pela questão técnica. A grande maioria das publicações referiram dívida (houve até um diário desportivo que mencionou o passivo), porém, em boa verdade, o gráfico incide sobre dívida líquida. Este conceito é simples e demonstra a capacidade que uma empresa tem de pagar imediatamente (com o dinheiro disponível) o endividamento financeiro contraído e por reembolsar. A UEFA decidiu ser criativa e acrescentou o saldo das transferências de passes de atletas, ou seja, a diferença entre o deve e o haver resultante das compras e vendas de jogadores. Seria interessante perceber a razão da UEFA: talvez se trate, uma vez mais, de criar um contexto propício a uma competição europeia por clubes, que envolva apenas equipas das Ligas economicamente mais fortes.

Na mesma página do relatório, constam ainda dados acerca do crescimento da dívida líquida face ao ano anterior e da relação entre esta, os proveitos operacionais e o ativo não corrente. Também relativamente a estes indicadores houve deturpação no teor da maior parte dos artigos publicados pela comunicação social.

Quanto aos proveitos operacionais, raras foram as menções ao facto de estes não incluírem as transferências de jogadores que, como se sabe, e o relatório da UEFA acentua essa ideia, são pedra basilar no modelo de negócio, na competitividade e até na sustentação financeira dos maiores clubes portugueses. Por outro lado, confundiu-se ativo com ativo não corrente, sendo que, no âmbito do estudo, apenas os ativos tangíveis (infraestruturas) e parte dos intangíveis (valor do plantel) não correntes foram considerados.

No entanto, o que está verdadeiramente em questão é o fair play financeiro da UEFA, cuja implementação tem sido acompanhada pela publicação anual do relatório que suscitou tanta animação nos últimos dias e que, ironicamente, chamou a atenção para o Benfica, sempre cumpridor dos critérios definidos pela UEFA. Não foi o caso do Sporting, que chegou a fazer parte da lista de incumpridores, e do Porto, na temporada passada, conforme assumido pelo seu administrador Fernando Gomes.

No fim, fica uma certeza: a dependência excessiva que os clubes portugueses têm da alienação de passes de atletas para conseguirem equilibrar as suas contas. Este é o principal constrangimento à sua performance desportiva a nível europeu. Encontrar melhores e novas formas de receitas é fundamental para Benfica, Porto e Sporting, sob pena da sua competitividade desportiva, alavancada por capitais alheios, e sustentabilidade financeira decrescerem significativamente nos próximos anos, tendo em conta as cada vez maiores disparidades verificadas, face aos clubes de diversos países, na capacidade de captação de receitas referentes aos direitos televisivos, bilhética e publicidade. Uma dinâmica que só se acentuará se for, de facto, criada uma Liga europeia.

Escritor/licenciado em gestão

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