Big Show Fifa

Até ao final do Mundial, Rogério Casanova vai publicar o "Diário do Mundial" na edição em papel e online do Diário de Notícias

Primeiro as boas notícias: o Mundial começou ontem e vai durar um mês inteiro. Um mês que foi preparado ao pormenor durante oito anos por vários administradores e burocratas do complexo futebolístico-industrial, muitos dos quais ainda não foram presos; que vai ocupar 736 futebolistas, muitos dos quais ainda não rescindiram o seu contrato de trabalho (mais 32 seleccionadores, muitos dos quais não foram despedidos ontem); e que vai prender as atenções de perto de mil milhões de espectadores, muitos dos quais nem sequer gostam de futebol, mas que vão ter de levar com tudo isto na mesma. O Mundial, aliás, permanece o índice mais saliente do triunfo total das pessoas que gostam de futebol sobre as pessoas que não gostam: vamos obrigar o Pacheco Pereira a saber quem é o Bernardo Silva. A vitória é nossa, é esmagadora, e estamos todos de parabéns.

Um mês que foi preparado ao pormenor durante oito anos por vários administradores e burocratas do complexo futebolístico-industrial, muitos dos quais ainda não foram presos; que vai ocupar 736 futebolistas, muitos dos quais ainda não rescindiram o seu contrato de trabalho


Cabe-nos agora estimar esta vitória, compreendendo correctamente os limites precisos da nossa felicidade, e não dissipando os créditos que dela derivam em tentativas fúteis de deturpar emocionalmente o certame. Há uma tendência - que vem crescendo a galope em Portugal nos últimos anos, por motivos eminentemente compreensíveis - para agarrar com unhas e dentes qualquer oportunidade de nos concentrarmos no que o futebol "tem de bom", no "jogo jogado", no que se passa "dentro das quatro linhas": toda a retórica que costumamos investir no esforço de separar a festa do futebol dos afluentes insalubres que a alimentam e poluem.
Por muito nobre que o impulso seja (e é, mas também não é, portanto passemos à frente), um evento organizado pela FIFA seria sempre o pior dos palcos para depositar essa esperança. Os burlescos pormenores da operação-relâmpago da polícia suíça em Maio de 2015, onde catorze participantes no congresso anual da organização foram detidos, bem como a substância das acusações do FBI ("uma cultura enraizada de corrupção sistémica") limitaram-se a confirmar décadas de rumores. Essas suspeitas sobreviveram até às periódicas tentativas de Sepp Blatter, entretanto suspenso, para as refutar com firmeza: certa vez convocou uma conferência de imprensa para explicar a um regimento de jornalistas que deviam parar de escrever sobre corrupção na FIFA porque "não existe corrupção na FIFA. A FIFA definitivamente não é corrupta!". (Outra das suas brilhantes iniciativas foi convidar um trio de consultores anti-corrupção: Henry Kissinger, Johan Cruyff e Placido Domingo).


É hoje mais ou menos garantido que não houve um único Mundial nas últimas (e próximas) décadas que não tenha sido vendido por membros da Comissão Executiva a troco de "projectos de desenvolvimento", condecorações estrangeiras, ou prosaicos envelopes recheados com dinheiro. A única dúvida, curiosamente, é o deste ano. O relatório interno do Comité de Ética da FIFA, divulgado pelo Bild em 2017, ilibou a Rússia de acusações de suborno, após uma investigação exaustiva que comprovou que todos os computadores usados pela operação de candidatura tinham sido destruídos. Um azar, com certeza, mas que lhes concede o benefício da dúvida.
O Campeonato do Mundo, tal como o conhecemos, nasceu num jantar entre João Havelange e Horst Dassel, filho do fundador da Adidas, em 1974, que lançou as bases para o modelo de exploração comercial do evento (assente em patrocinadores oficiais e venda de direitos televisivos) e que transformou a FIFA do clube neo-vitoriano de Sir Stanley Rous - um Presidente não-remunerado liderando uma equipa de doze pessoas - no prostíbulo hemisférico de Havelange e Blatter, com quinhentos funcionários e receitas anuais na casa dos dois mil milhões de dólares.

O Campeonato do Mundo, tal como o conhecemos, nasceu num jantar entre João Havelange e Horst Dassel, filho do fundador da Adidas, em 1974


Havelange chegou à Presidência da organização liderando uma espécie de insurgência populista com o apoio dos membros do terceiro mundo e implementou um projecto de redistribuição dupla: de estatuto e de capitais. A FIFA compensava as federações não-europeias com o acesso permitido pela expansão dos Mundiais a mais equipas e com ocasionais transferências de incentivos mais tangíveis; as federações retribuíam continuando a garantir os votos necessários para manter o status quo. Era mais ou menos inevitável que essa política culminasse nos mandatos de Blatter, onde o compromisso com a redistribuição começou a manifestar-se de forma cada vez mais descarada: redistribuições para bolsos, para hotéis, e para cofres nas Ilhas Caimão.

Este desfile de grotescos não serve para nos fazer sentir mal, mas apenas para reforçar a ideia de que o futebol é isto e sempre foi isto. Resgatá-lo às forças do mal ocludindo tudo o que não acontece na relva ou recuperar uma mítica e imaginária era dourada cujos valores foram contemporaneamente pervertidos são ilusões nostálgicas tão artificiais como as várias esquizofrenias com que tentamos racionalizar o amor que sentimos por uma modalidade tão bela e tão fundamentalmente disparatada. Por um lado queremos que o futebol seja igual a tudo o resto (daí a perene e popular ficção que tenta ver o xarope de neuroses, afectos, ódios, tribalismos, contratos milionários e carreiras curtas que é a ligação entre jogadores, clubes e adeptos como se fosse uma relação laboral igual às outras); por outro esta vontade muito grande de que o futebol exista milagrosamente blindado de tudo o que infiltra os restantes níveis da sociedade (fraude, corrupção, violência, populismo e irracionalidade).

Apesar da retórica civilizante que continua a manter o seu apelo, o futebol nunca fez mais nem menos do que proporcionar-nos a melhor maneira possível de assistir a um combate entre dois conjuntos de inteligências e destrezas atléticas. Não está nem nunca esteve capacitado para cumprir a função de uma instituição liberal (que será qualquer coisa como diminuir a discrepância entre o que é e o que deveria ser); se essa função existe, pertence à memória de cada espectador, e da fiel transmissão das suas idiossincráticas hierarquias.
A memória, por exemplo, capaz de recordar que o Campeonato do Mundo é o festejo transcendente de Tardelli; mas também Tassotti a rachar o nariz a Luis Enrique. Romário a erguer a taça do primeiro "Tetra" no Rose Bowl em 1994; e Gianpiero Combi a erguer a Copa del Duce em 1934, mandada fazer de propósito por Mussolini (a quem o troféu Jules Rimet parecera "demasiado pequeno"). É o mítico golo de Bergkamp à Argentina em 1998; e também o facto de Bergkamp só o ter conseguido marcar porque não foi expulso no jogo anterior, apesar de ter pisado deliberadamente o defesa Mihajlovic quando este estava no chão.

São milhares de pessoas a dançar em Copacabana celebrando a vitória do Brasil sobre a Colômbia em 2014; e os 1200 trabalhadores migrantes que já morreram nas obras de construção dos estádios do Qatar para o Mundial de 2022.

E são os dois golos mais famosos do séc. XX, ambos marcados na mesma tarde, a 22 de Junho de 1986, no Estádio Azteca: um violou as leis da física, outro violou as leis do jogo.

Aceitar tudo isto como parte do mesmo pacote, e reconhecer que todos os que gostam de futebol estão indirectamente implicados nas suas várias dimensões - as boas, as más e as assim-assim - não obriga ninguém à vergonha, a culpas históricas, ou a uma abnegada amnésia parcial. As memórias são colectivas, mas a emoção que despertam é uma opção individual.

Será essa, aliás, a melhor forma de encarar as próximas quatro semanas: como um dispositivo para criar memórias partilhadas - factos e imagens que todos (e somos muitos) vamos continuar a recordar daqui a quatro ou cinco Mundiais. Apesar do esforço hercúleo para articular preventivamente narrativas de validação e continuidades dramáticas (se Messi ganhar um troféu sozinho poderá então ascender ao patamar de etc, etc) que constitui grande parte do comentário desportivo formal e informal nestas ocasiões, o melhor que poderemos fazer no fim do torneio é ratificar aquilo que por acaso aconteceu, explicando que tudo era inevitável a partir do momento em que o vimos acontecer. As histórias que contaremos para organizar as imagens dispersas serão menos importantes que as imagens em si, que por sua vez vão ser mais vívidas daqui a uns anos do que no momento em que acontecem.

a melhor forma de encarar as próximas quatro semanas: como um dispositivo para criar memórias partilhadas - factos e imagens que todos (e somos muitos) vamos continuar a recordar daqui a quatro ou cinco Mundiais


O melhor momento de cada Mundial só pode ser vivido retrospectivamente: aquele instante inicial em que tudo começou, mas ainda não sabemos o que vai ser acrescentado ao nosso repositório comum. Em 2014, umas horas após o Brasil-Croácia, ainda não sabíamos do golo de Tim Cahill à Holanda nem da defesa de Keylor Navas contra o Uruguai; da dentada de Luis Suárez a Chiellini, ou do desmaio de Sabella na linha lateral; não sabíamos da extraordinária exibição de Neuer como líbero contra a Argélia, nem que James Rodriguez ia celebrar um golo com um gafanhoto do tamanho de um helicóptero pousado no braço; que a Holanda ia marcar cinco golos aos campeões em título, nem que a Alemanha ia marcar sete aos anfitriões. Hoje é o momento equivalente em 2018: todas as possibilidades estão em aberto, e desconhecemos as dez ou quinze coisas que nunca vamos esquecer. Aproveitemos enquanto dura, que já está perto de acabar.

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