Depois da pandemia a Troika?

Portugal, devido a uma duplamente deficiente gestão da pandemia, enfrenta, para além de uma tremenda crise humanitária que custa diariamente centenas de vítimas mortais evitáveis, uma das mais severas recessões económicas das últimas décadas.

Defendemos sempre que a gestão sanitária da crise se refletiria inevitavelmente no pulsar da economia. O caso da China, do Japão e da Coreia são paradigmáticos. Enfrentada a primeira vaga com sucesso as suas economias pouco ou nada sofreram, com a China a registar até um crescimento assinalável.

Descontrolada a propagação do agente infecioso e não se tomando medidas resolutas para rapidamente a interromper, a economia começa a fraquejar. E à medida que o tempo vai passando as consequências no tecido empresarial são cada vez mais pesadas, repercutindo-se inevitavelmente no sistema bancário que terá de enfrentar um crescendo do crédito mal parado e incobrável.

O crédito mal parado teria sido já avassalador não fora a política europeia de moratórias. Mas quando ela terminar e os pagamentos suspensos tiverem de ser retomados a extensão do problema vai revelar-se.

Com bancos ainda a recuperar financeiramente da crise de 2011, ocorrida há 10 anos, com lucros escassos, e uma estrutura de capital ainda longe de robusta, este choque poderá levar a novas intervenções estatais para proteger os depositantes, uma vez que o Fundo de Garantia de Depósitos tem sido drenado dos seus recursos para acudir ao Novo Banco. Uma vantagem a generalidade dos bancos que atuam no mercado português não têm os problemas de liquidez que os paralisaram na crise anterior e levaram Sócrates a pedir intervenção externa.

Mas o rácio da dívida já voltou a disparar devido à redução do PIB e se a necessidade de apoio aos bancos se materializar ficaremos confrontados com nova intervenção externa e nova dose cavalar de austeridade, empobrecimento coletivo e emigração que nos vai relegando inexoravelmente para a cauda de uma Europa cada vez mais enfraquecida.

A dimensão do efeito económico da pandemia neste ano de 2021 depende de dois fatores fundamentais: do controlo da propagação da doença e da velocidade de vacinação da população, nomeadamente a mais idosa. Em Portugal, nestas duas frentes, infelizmente, não há boas notícias. Mas nunca é tarde para emendar a mão.

Economista, MBA. Autor de livros e artigos sobre Capital Social, Marketing, Fraude e Corrupção, Compliance e Corporate Governance. Consultor de gestão.

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