Cristas entrou determinada a provocar um enorme chavascal

O colunista do DN Rogério Casanova analisa a prestação dos seis líderes dos partidos parlamentares no debate de ontem à noite na RTP 1.

Rui Rio

Possui a fisionomia mais interessante de todos os candidatos, em que a testa alta e a ténue hipotrofia das partes constituintes cria uma ilusão de concavidade que irradia a partir do centro, e o faz parecer mais distante de quem observa. É o complemento ideal da sua postura típica, curvado sobre o ângulo dos cotovelos, como um homem incessantemente empenhado em assegurar que tem os pés bem assentes na terra (a mesma terra que um dia nos vai engolir a todos e devolver-nos os cadáveres à poeira).

O tom que Rio adoptou - ou descobriu - ao longo da campanha é o equivalente retórico ao rescaldo de uma moderada crise de meia idade: o fatalismo confiante de quem percebeu que vamos todos morrer e que encontrou nessa revelação um motivo de alegria, bem como a sua modalidade preferida de senso comum. "Bom, vamos lá ver uma coisa", "Temos aqui um debate sobre uma coisa um bocado esquisita...", "Andamos aqui todos à volta dos números, né, mas...". São os maneirismos típicos de quem quer lisonjear o receio da complexidade, mas também formados pelo hábito da súmula final: da pessoa no café que espera que toda a gente acabe de falar antes de os informar que não é bem assim e que tudo aquilo foi uma perda de tempo escusada.

Como fatalista, é possível que tenha uma suspeita secreta de que não é suposto estar a divertir-se tanto. Mas não o consegue evitar, e era claramente a pessoa mais feliz entre todos os presentes.

António Costa

Como um concorrente do Preço Certo, chegou confiante e bem disposto; a boca repleta de algarismos, e os braços carregados de presentes, que tentou distribuir por toda a gente: dados estatísticos, recortes de imprensa, doçaria regional.

A​​​​​ estratégia de recitar percentagens sucessivas como um triunfante poema em verso branco ("baixámos de 25%/ para 24,9%!") soçobrou na ingratidão de adversários e aliados, ambos incapazes de reconhecer os méritos estéticos de uma boa décima percentual.

Visivelmente desiludido, recuou para terrenos mais familiares, dedicando toda a sua energia a demonstrar a fragilidade de um conceito problemático que é mais uma sobreposição quântica do que uma condição estável: o conceito de "vogal". Fonemas em cuja emissão o ar devia passar livremente pela boca encontram nele uma obstrução inesperada, mas firme, própria de quem é fiel aos seus princípios. Na sua faceta mais conciliadora, Costa tentou repor alguns cortes do passado, embora nem sempre da forma mais criteriosa ("Ntrdade carbónica", por exemplo, ressurgiu como "naturalidade carbónica"). Mas quando se sentiu mais cercado, não cedeu um milímetro ao vocalicamente correcto, prometendo combater a prcridade, aumentar o cmpmento sldário para idosos, e aludindo mais uma vez a esse organismo misterioso a que chama Trbnal Conxtcnal (que fiscaliza a a conxtcnlidade das leis).

Numa resposta a Catarina Martins, usou a frase "Como disse Manuel Alegre, e bem", naquela que foi talvez a primeira ocasião registada em que a frase "Como disse Manuel Alegre, e bem" foi proferida, ou sequer pensada, por outra pessoa que não Manuel Alegre.

Catarina Martins

De todos os candidatos, é a que possui as mais óbvias vantagens naturais de dicção, timbre, fluência e modulação de registo, conseguindo, na mesma frase, passar de exasperação não-estridente a apaziguamento melífluo apenas com o expediente de subir ou descer duas oitavas.

Socorreu-se destes atributos, bem como de um aparente conhecimento dos cancioneiros medievais, para transformar a parte final do debate numa cantiga de amigo: aquela em que o amante desarranjado proclama gratidão pela exaltada qualidade do seu desgosto.

A acusação que fez a Costa, descodificada, é de estar a embirrar com ela pelos motivos errados, quando havia tantos motivos melhores.

Assunção Cristas

Entrou determinada a provocar um enorme chavascal com cada intervenção e foi parcialmente bem sucedida, revelando um timing exemplar na escolha dos momentos em que obrigou alguém a interromper a sua interrupção para lhe dizer "eu não a interrompi". Foi a alternativa possível (e, em rigor, mais razoável) à sua estratégia original, que consistia em rasgar o abdómen do primeiro-ministro de alto a baixo com uma unha pontiaguda e brandir o seu coração palpitante à luz dos holofotes enquanto gritava na direcção das câmaras: "É ISTO QUE ACONTECE A QUEM ME TIRA OS MEUS 6%".

Apesar de tudo, em nenhum momento transmitiu outra impressão que não a de se sentir nas suas sete quintas, nenhuma das quais fica no Alentejo.

Jerónimo de Sousa

Num político tão compenetrado em fazer o seu trabalho, que é discordar das coisas como elas são, pode parecer paradoxal que se notem tão poucas diferenças na sua linguagem corporal entre as ocasiões em que está a discordar das coisas como elas são ou a concordar com as coisas como elas são. Mas ele não mede o tempo como nós, nem reage do mesmo modo à sua prosaica linearidade. É teoricamente possível, por exemplo, que Jerónimo de Sousa não participe sequer em "debates", no plural: na sua percepção tudo o que acontece faz parte de um único e interminável debate, em que umas vezes discorda de umas coisas, e outras vezes discorda de outras: um segmento cristalizado de eternidade, à margem do tempo, que insiste obstinadamente em fluir de formas pouco comunistas.

O seu rosto é uma litografia de desencanto, os sulcos desenhados pela repulsa entre a substância humana e as substâncias do mundo. O espaço entre palavras é vasto, preenchido com silêncios e reticências. "Em relação à... questão que... também está sempre... hmm... colocada... essa concepção dum... da... de justiça fiscal... hmmm". Através da indeterminação sintáctica, o Infinito é conjurado.

Depois de supervisionar tranquilamente o tráfego aéreo de frases que o sobrevoavam, concluiu o debate com uma proposta ousada para tornar as creches gratuitas, de forma a que os jovens trabalhadores possam ter imenso sexo uns com os outros sem contraceptivo, permitindo que a interacção solidária entre esperma e óvulo produza mais jovens trabalhadores.

André Silva

Ao contrário de Jerónimo, ganha espaço para respirar não com intermitências na articulação, mas repetindo palavras, um efeito que já seria invulgar mesmo que não reproduzisse fielmente o tique de uma personagem secundária do filme Goodfellas (Jimmy Two Times): "onde eu quero chegar, onde eu quero chegar... Lisboa, assim como, assim como o Porto, ao nível, ao nível do IMI... aumentar, aumentar..." (etc).

Munido com esta redundância embutida, debateu não como como portador de opiniões específicas , mas como o fiel depositário de um segredo terrível, cuja natureza era sua missão proteger a qualquer custo. Mudando de assunto a intervalos regulares, recorreu a um catálogo restrito de temas, que usou como palavras de segurança numa exótica sessão de sado-masoquismo (Grampo. Chicote. "Fotovoltaicas!" Stop.)

Tem um talento peculiar para conseguir ser previsível mesmo enquanto diz a coisa mais inesperada possível. Quantas pessoas antes do debate esperariam ouvir a expressão "estufas da costa vicentina"? Quantas pessoas, depois de a ouvirem, não acenaram tranquilamente, pensando "as estufas da costa vicentina, como é óbvio"?

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